27 dezembro 2011

A VOLTA DE JESUS

Frei Betto

Sem chamar a atenção, Jesus voltou à Terra em dezembro de 2011. Veio na pessoa de um catador de material reciclável, morador de rua. Comia prato feito preparado por vendedores ambulantes ou sobras que, pelas portas do fundo, os restaurantes lhe ofereciam.

Andava sempre com uma pomba pousada no ombro direito. Estranhou o modo como as pessoas bem vestidas o encaravam. Lembrou que, na Palestina do século 1, sua presença suscitava curiosidade em alguns e aversão em outros, como fariseus e saduceus.

Agora predominava a indiferença. Sentia-se, na cidade grande, um Ninguém. Um ser invisível.

Ao revirar latas de lixo à porta de uma faculdade, nenhum estudante ou professor o fitou. “Fosse eu um rato a remexer no lixo, as pessoas demonstrariam asco,” pensou. Agora, nada. Nem o percebiam. Ou consideravam absolutamente normal um homem andrajoso remexer o lixo.

Graças a seu olhar sobrenatural, capaz de apreender alma e mente das pessoas, Jesus sabia que eram, quase todas, cristãs...

Roubaram um carro defronte a faculdade. A vítima, uma estudante cirurgicamente embelezada, apontou-o como suspeito de cúmplice dos ladrões. A polícia, sem pistas dos criminosos, decidiu prendê-lo para aplacar a ira da moça, filha de um empresário.

O delegado inquiriu-o:
— Nome?

— Jesus.

— Jesus de quê?

— Do Pai e do Espírito Santo.

O delegado ditou ao escrivão:

— Jesus da Paz, natural do Espírito Santo.

A polícia conhece a diferença entre bandidos e moradores de rua. Tão logo a moça e seus pais deixaram a delegacia, Jesus foi liberado.

Saiu pela avenida, de olho nas vitrines das lojas. Todas repletas de enfeites de Natal. Tentou avistar um presépio, os reis magos, uma imagem do Menino Jesus... Viu apenas um velho de barba branca, gordo, com a cabeça coberta por um gorro tão vermelho quanto a roupa que vestia. O menino nascido em Belém havia sido substituído por Papai Noel. A festa religiosa cedera lugar ao consumismo compulsivo e à entrega compulsória de presentes.

Impressionou-se com os rápidos flashes coloridos dos televisores expostos nas lojas. A profusão de anúncios. Comentou com o Espírito Santo:

— Houvesse TV naquela época, teriam transmitido o Sermão da Montanha como um discurso subversivo e exibido no Fantástico a multiplicação dos pães. Se eu facilitasse, uma marca qualquer de cerveja iria querer me patrocinar...

Em busca de material reciclável, Jesus se surpreendeu com a quantidade e a variedade de lixo. Quanta coisa ele não conhecia! Como as pessoas consomem supérfluos! Quanta devastação da natureza!

Dormiu num banco de praça. Ao acordar, deu-se conta de que desaparecera seu saco repleto de latinhas e papéis. Possivelmente outro catador o levara. Pobre roubando pobre. Resignado, passou o dia revirando lixo para ganhar uns trocados e poder garantir a janta.

Tarde da noite, viu uma igreja aberta. Decidiu entrar. Os fiéis, ao vê-lo tão maltrapilho, torceram o nariz. Jesus preferiu ficar de pé no fundo do templo. A Missa do Galo se iniciava. Achou o padre com cara triste, como se celebrasse um ritual mecânico. O sermão soou-lhe moralista. Não sentiu que houvesse, ali, a alegria da comemoração do nascimento de Deus feito homem. Os fiéis se mostravam apressados, ansiosos por retornarem às suas casas e se fartarem com a ceia natalina.

Terminada a missa, Jesus perambulou pela cidade. Pelas calçadas, sacos de lixo estufados de embalagens para presentes, caixas de papelão, ossos de frango e peru, cascas de ovos... Observou os moradores de um prédio reunidos no salão do andar térreo. Comiam vorazmente, estouravam garrafas de espumantes, trocavam presentes, abraços e beijos. Nada ali, nenhum símbolo, que lembrasse o significado originário daquela festa.

Passou diante de uma padaria que fechava as portas. O padeiro, ao ver o catador, pediu que esperasse. Retornou lá de dentro com uma sacola de pães, fatias da salame e um refrigerante.

— É pra você comemorar o Natal – disse o homem.

Jesus chegou a uma praça semiescura. Havia ali uma mulher excessivamente maquiada. Buscou um banco e ali se instalou para poder comer. A mulher se aproximou:

— Ei, cara, tem o que aí?

— Pão, salame e refrigerante.

— Não comi nada hoje. E a noite tá fraca. Faz duas horas que estou aqui e nada de freguês. Acho que em noite de Natal os caras ficam com culpa de pegar mulher na rua.

Jesus preparou o sanduíche e estendeu-o à mulher.

— Se não importa de beber no mesmo gargalo...

— Tenho lá nojo de alguma coisa? – murmurou a mulher. ¾ Se tivesse, não estaria rodando a bolsinha na rua.

— Você não tem família?

— Tenho, lá na roça. Larguei aquela miséria pra tentar uma vida melhor aqui na cidade. Como não fui pra escola, o jeito é alugar meu corpo.

— Esta noite de Natal não significa nada pra você?

— Cara, você não imagina o que já chorei hoje lá na pensão. A gente era pobre, mas toda noite de Natal minha mãe matava um frango e, antes de comer, a família rezava um terço e cantava Noite feliz. Aquilo me deixava muito feliz. Não posso relembrar que as lágrimas logo inundam os olhos – disse ela puxando o lenço de dentro da bolsa.

A mulher fez uma pausa para enxugar as lágrimas e indagou:

— Acha que, se Jesus voltasse hoje, esse mundo iria melhorar?

— Não sei... O que você acha?

— Acho que ninguém ia dar importância a ele. Essa gente só quer saber de festa, e não de fé. Mas bem que ele podia voltar. Quem sabe esse mundo arrevesado tomava jeito.

— Eu não gostaria que ele voltasse. Não adiantaria nada. Há dois mil anos ele veio e deixou seus ensinamentos. Uns seguem, outros não. Se o mundo está desse jeito, a ponto de eu ter que catar lixo e você alugar o corpo, a culpa é nossa, que não damos importância ao que ele ensinou. Veja, hoje é noite de Natal. Jesus renasce para quem?

— No meu coração ele renasce todos os dias. Gosto muito de orar, não faço mal a ninguém, ajudo a quem posso. Mas, sabe de uma coisa? Eu gostaria de poder falar com Jesus, assim como nós dois estamos conversando aqui.

— E o que diria a ele?

— Bem, eu perguntaria se ser prostituta é pecado. Já vi um padre dizer que sim, e ouvi outro falar que não. O que você acha?

— Acho que Deus é mais mãe do que pai. E lembro que Jesus disse um dia aos fariseus que as prostitutas iriam entrar no céu primeiro que eles.

Frei Betto é escritor, autor do romance “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.

13 dezembro 2011

Minha contribuição à Pátria!



No início de 1979, como sabem meus leitores, prestei o Serviço Militar Obrigatório e fui designado para o II Batalhão de Guardas.

Creio que todos sabem, se já leram os outros posts, que eu fui corneteiro e tinha certas regalias.

O Segundo BG foi como nossa casa no período de quase um ano e isso tem algum fator de relevância para a grande maioria dos que lá serviram. Apesar de ter sido no período da ditadura militar e com todos os rigores que a vida de um soldado da Infantaria tem, os dias lá passados não foram um desperdício de tempo, mesmo tendo eu parado de estudar durante o serviço.

Aprendi muitas coisas, tanto no campo de vida prática como no que eu chamo de arte de observar o comportamento alheio (vim a saber na faculdade de Pedagogia que isso é uma ciência chamada Behaviorismo! Então eu já era cientista desde os meus tenros anos de vida!).

Posso sublinhar aqui os vários tipos de comportamento humano (alguns não tão humanos assim...), os quais observei atentamente, sem tomar qualquer nota ou apontamento, tendo somente o compromisso com minha curiosidade e crítica interna.

Alguns comportamentos eram claramente por mim identificados como sendo o reflexo da frustração que os militares sentiam quanto à perda do poder! Isso era demonstrado através de muitas reações ou tomadas de decisão de oficiais de média ou alta patente.








Soldados do ainda ativo Primeiro BG - Rio

O Batalhão de Guardas era uma tropa de Choque e Elite e tinha atribuições que exigiam um treinamento diferenciado das outras unidades militares de infantaria.

Em São Paulo, no Parque Dom Pedro II, ainda existem as “ruínas” do antigo quartel do II BG.

O II BG foi um braço da ditadura, com certeza, pois uma das unidades onde a segurança era feita por soldados do II BG era o Doi-Codi da Rua Tutóia, ali bem perto da Avenida Paulista e da Brigadeiro Luiz Antônio. Todos sabemos que lá muitos presos políticos eram torturados e alguns morreram no interior de suas dependências.

No ano em que servi a ditadura já estava, digamos, enterrada e o Presidente Figueiredo tinha a missão de jogar a primeira pá de terra em cima do caixão . Missão dada é missão cumprida e ele foi até o fim.

Gostaria que o quartel do Parque Dom Pedro fosse restaurado e pudesse ser usado como uma Escola, sem esquecer o que foi antes, talvez até um Museu-Escola, para que ninguém esqueça que lá muita gente aprendeu alguma coisa, inclusive lições importantes como a de que a vida passa, de que vale a pena lutar pelas coisas do bem e pela liberdade e que tudo pode mudar a qualquer momento!




07 dezembro 2011

Aos políticos profissionais (e outros aproveitadores de ocasião)

Lobo velho
Em pele de ovelha nova
Polvo não estático
A enfiar seus
Tentáculos
No anus do povo
Inerte
Inculto e
Alienado
Alimentado por
Mídia velha
Carcomida pelo tempo
Putrefata e fétida
Sem efeito para
Narizes acostumados
Acostumados ao clientelismo
Ao paternalismo
Desses polvos-lobos
Vorazes aproveitadores
Da inocência
Alheia