24 dezembro 2010
Tudo e todos (as)
No começo do mundo ninguém era dono de nada,
Tudo o que existia era de todos e todas.
Então, os campos eram livres, as águas eram limpas,
Todos plantavam tudo,
Tudo que era colhido pertencia a todos e todas.
Os homens e as mulheres viviam sempre caminhando,
Às vezes paravam para descansar e dormir,
Mas não permaneciam muito tempo num lugar.
Certo dia, uma pessoa parou e começou a pensar...
Olhou para os rios,
Olhou as árvores e os seus frutos,
Olhou as vacas que pastavam calmamente pelo campo verde,
E derrepente, levantou-se bruscamente, bateu o pé no chão e gritou:
“ISTO É MEU!!!”
As pessoas que estavam ao redor olharam-se assustadas, afinal nunca haviam ouvido aquilo antes.
E quando menos se esperava, ouviu-se outro grito que vinha lá do outro lado rio:
“ISTO É MEU!!!”
E as pessoas também olharam e se assustaram.
E ouviu-se novamente o grito vindo de outra pessoa: “ISTO É MEU!!!”.
E agora estávamos no meio de uma gritaria geral: ISTO É MEU, ISTO É MEU, ISTO É MEU, ISTO É MEU, ISTO É MEU, ISTO É MEU...
As pessoas enlouquecidas corriam e se acotovelavam, fazendo cercados e demarcando o que era seu...
E os campos já não eram livres...
E as águas começaram a ficar sujas...
E os frutos das árvores já não eram de todos e todas...
E nem todos podiam mais plantar...
09 dezembro 2010
Justiça

“O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os carácteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: o país está perdido!”
Isto foi escrito em 1871, por Eça de Queirós, no primeiro número d'As Farpas. Parece mais atual do que nunca..
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Fico a pensar o que é a Justiça.
O que representa a balança
A imagem
Feminina e
Vendada
Que simboliza harmonia
E imparcialidade
A firmar um contrato com toda a
População
Fico a sonhar
Com um dia que chegue
E que traga a paz
Entre gente
Total ou parcialmente
Diferente
Que não pense que sua verdade
É a única
E queira assim suplantar
O que a cor de seu sangue
Ou as próprias entranhas
Ensinam
Sei que verei
Ou então deixarei
A semente que irá
Evoluir
Numa grande floresta
Fecunda
E vivaz
Adubada pelo que restar
Dessa raça humana
Mesquinha
Que após a podridão
De sua carne
Servirá como fertilizante
Da evolução
De uma nova era da vida
Que virá
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07 dezembro 2010
Uma Mensagem Secular de Fim de Ano

Há mais de cinco mil anos, muito antes de um homem em especial ter nascido no oriente médio, o fim de dezembro é comemorado como um rito de passagem e renascimento por povos em todo o mundo.
O solstício de inverno, no norte, era celebrado há milênios pelas mais diferentes tribos, nações, culturas e religiões que a diversidade da natureza humana já produziu. Uma festa que sempre uniu famílias, amigos e afetos, e tem sido comemorada desde a alvorada da civilização no Velho Mundo, para nos lembrar que, mais uma vez, o ano se finda e tivemos a oportunidade de aproveitá-lo da melhor forma que nos é possível.
Seja nas comemorações pagãs do renascimento das divindades solares – Mitra para os hindus, Horus para os egípcios, Sol Invictus para os romanos, entre outros – ou nas manifestações que representavam a iluminação de Buda pela passagem do solstício, ou até mesmo na adaptação cristã mais recente para a data, o Natal de 25 de dezembro, o fim de ano é uma data que conjuga uma imensa bagagem não somente histórica, mas também humana.
É hora de repensar o futuro que queremos e planejamos, tomando como condição de contorno o passado, o ano que termina; de pesar positivos e negativos, recolher-se à admiração do fenômeno que é a vida e celebrar que o mundo de hoje é melhor que o mundo de ontem, ou, se não for, que pelo menos tentamos fazê-lo desta forma, e não desistiremos disto, pois é da natureza humana evoluir.
Por isto, considere o que há de bom e o que há de ruim na sua vida. Reconheça que as coisas boas são fruto de trabalho e dedicação e que as coisas ruins podem, sim, ser melhoradas, principalmente com mais trabalho e dedicação.
Lembre-se de que errou, mas que também acertou, e que se arrependeu dos erros. Tenha certeza de que não há mal nato em ser humano, pois não poderia ser diferente, e que a culpa por si só não te previne de errar novamente. Trabalhe para que os erros sejam corrigidos, e não lamentados.
Pratique a empatia: ponha-se no lugar do próximo, e não faça aos outros aquilo que não quer para si. Seja solidário e gentil, companheiro e compreensivo. Perdoe os erros, quando honestamente reconhecidos.
Seja tolerante: aprenda a compartilhar as igualdades com alegria, mas também a respeitar e celebrar as diferenças inerentes dos seres humanos, que tornam cada um de nós único e insubstituível.
Questione o senso comum, diariamente: das tradições, superstições e ideias mais tenazes aos preconceitos mais arraigados, estando disposto a se levantar contra as incoerências e injustiças. Crie ideias próprias, lógicas, saudáveis e coerentes. Mas esteja também aberto a discordarem de você, valorizando a discussão, e não o conflito.
Aplique a racionalidade, a faculdade que mais lhe diferencia dos demais animais, para tomar as atitudes e posições mais sensatas, e não aquelas baseadas única e exclusivamente em dogmas e premissas imutáveis. Modele sua visão do mundo de acordo com os fatos, e não os fatos de acordo com sua visão de mundo.
Não deixe lugar para o egoísmo e mesquinharia intelectual. Há males terrenos piores que qualquer danação eterna, pois prejudicam seu próximo, aqui e agora. Antes de sair pedindo por vida nova, prometa a si mesmo mudanças para melhorar o mundo em que vivemos e busque a convivência pacífica entre os seres, humanos ou não. Respeite não somente o próximo, mas a Natureza, pois dela viemos e a ela retornaremos.
Aprenda a conviver com a incerteza e a dúvida saudável. Pergunte-se se verdades e respostas absolutas são mesmo o caminho para achar sentido na vida. Nada de sobrenatural daria à sua vida um sentido mais amplo e concreto do que o significado que você mesmo dá a ela, em todos os dias em que realiza algo que lhe dá prazer ou em que compartilha momentos com quem ama. Aproveite cada momento como o último, responsavelmente, pois nada lhe garante que exista algo além do que temos aqui.
Descubra que seus credos são pontos de vista dignos de espaço tanto quanto os credos de outrem, ou mesmo tanto quanto a descrença. Portanto, neste Natal, não importa no que você acredita, acredite em ligar para aquele velho amigo; acredite na boa vontade independente de crenças; acredite em não descer ao nível daqueles que quer ver punidos; acredite na cooperação por um futuro melhor; acredite no amor em qualquer uma de suas formas.
E acredite na liberdade de acreditar, porque somente tendo livre acesso a qualquer tipo de crença é que você terá a oportunidade de escolher, dentre todas as possíveis, aquelas que trarão soluções para a sua vida e a vida de seus semelhantes – pazes e amores, e que sejam os melhores possíveis.
Fonte: Bule Voador
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03 dezembro 2010
Violações aos direitos humanos que vêm sendo cometidas
Militantes da Rede contra Violência estiveram ontem, 1º de dezembro, na Vila Cruzeiro, e puderam recolher diversas denúncias de violações dos direitos humanos por parte das forças de segurança estatais (polícia e forças armadas) que ocuparam recentemente a localidade. Nesta visita, também participaram correspondentes de uma televisão européia e jornalistas de um grande jornal paulista.
O ambiente na comunidade é de extrema tensão e é possível perceber o quão apreensivos e desconfiados estão os moradores. Quase toda a atenção destes está voltada para os últimos acontecimentos e suas rotinas foram inteiramente alteradas. Os militantes da Rede ouviram diversos relatos que, de uma maneira geral, expressavam a preocupação dos moradores com o que poderia acontecer com seus familiares e em suas casas quando lá não estivessem.
À medida que caminhavam, os referidos militantes e jornalistas eram abordados por moradores revoltados com a situação e que gostariam, de alguma forma, de denunciar a situação que estavam vivenciando. Não era preciso abordar as pessoas e perguntar sobre violações, os moradores procuravam-nos espontaneamente. Ouvimos queixas e denúncias de cerca de 30 pessoas. A cada passo ficava muito claro que a versão oficial de um apoio irrestrito da população local a ação do Estado não se sustenta.
Há uma preocupação generalizada com a forma como as revistas aos moradores e às casas são realizadas. Diversas pessoas, que quase sempre não queriam se identificar por medo do que lhes poderia acontecer, já que temem represália às suas denúncias, reclamavam de humilhações sofridas, especialmente as diferentes formas de violência física e psicológica às quais foram submetidos. Muitos, é possível afirmar, foram ofendidos em sua dignidade de seres humanos.
O procedimento padrão utilizado pelos policiais, especialmente os da polícia militar, é o seguinte: sem mandato de busca e apreensão ou outra autorização judicial, que legalmente permitiria a entrada nas casas, os agentes de segurança arrombam portas, portões e grades, com pessoas no interior ou não. Reviram os móveis e outros pertences, levam objetos de valor e quebram o que sobra. Em uma das primeiras casas que visitamos, percebemos muitos objetos revirados e jogados no chão. A moradora nos informou que os policiais levaram a televisão e inclusive o chuveiro do banheiro. A geladeira desta moradora foi vendida pelos policiais a outro morador local pelo valor de R$ 500,00.
Um grupo de moradores que os militantes da Rede encontraram ao caminhar pela comunidade disseram que não agüentam mais a presença da polícia. Dizem que agora são obrigados a trancar toda a casa e estão com medo que roubem seus pertences e outras violências sejam cometidas. Outro morador relatou que arrebentaram a porta de sua residência e que agora têm que tomar mais cuidado. No momento em que conversavamos com este último, aparece um senhor, que mora na localidade há mais de 50 anos, e reclama da repetição das abordagens dos policiais às casas. Mais a frente, um grupo de mulheres reclama que entrou em contato com a Comlurb para que esta retirasse carros queimados próximos às suas residências, mas não obtiveram resposta.
Além das críticas aos arrombamentos e roubos de objetos, muitos moradores reclamaram da forma de tratamento desrespeitosa e humilhante por parte dos agentes de segurança. Uma moradora disse que “eles nos tratam como bicho”. Ela ainda informou que policiais do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) têm uma atitude completamente diferente quando não há mais luz do dia ou as câmeras da imprensa por perto. Reclamaram, ainda, da truculência dos policiais do 16° Batalhão.
Em outra situação, policiais do 22° Batalhão, não identificados (como, de resto, acontece com a maioria dos policiais), entraram numa casa, amordaçaram um jovem, levaram-no para um dos cômodos da residência e retiraram os seus familiares, inclusive crianças recém nascidas, colocando-as na rua. Enquanto mantinham o jovem amarrado, bateram nele com um cabo de vassoura. Perguntavam se ele possuía alguma informação sobre bandidos, mas o jovem afirmava que não. Em vão. Os policiais perguntaram, então, se ele tinha dinheiro, pois, se tivesse, não quebrariam nada em sua casa. Entretanto, percebendo que as pessoas ali eram pobres, os policiais quebraram o forro do teto e pegaram celulares. Importante mencionar que alguns policiais estavam de touca ninja. Antes de irem embora, ainda pegariam uma foto do referido jovem, sem explicar o motivo de tal atitude.
Durante toda a caminhada realizada, a principal denúncia recebida foi a de que um outro jovem teria sido assassinado pela polícia, fato não noticiado pela imprensa. Segundo informações, os policiais acharam que se tratava de um traficante. O jovem foi morto e seus restos mortais jogados a animais.
A comitiva da Rede e da imprensa foi à localidade da Vila Cruzeiro chamada Vacaria, onde até a tarde de sábado (27/11) haviam cadáveres insepultos sendo devorados por porcos. Sentimos o forte cheiro de decomposição, vindo de um matagal, mas foi impossível verificar a existência de restos humanos. Uma viatura da PM (que foi filmada pelo cinegrafista da TV estrangeira) passou por nós e dela exalava forte odor de restos em decomposição.
Oficiaremos o Ministério Público no sentido de organizar uma ida à comunidade, sem acompanhamento policial ou da imprensa, para que as inúmeras denúncias possam ser formalizadas com segurança pelos moradores.
Fonte: Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência
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