04 agosto 2010

Diário de um Corneteiro - O General

Não me lembro de seu nome. Ele foi comandante do II Exército, durante alguns meses do ano de 1979 e carregava no braço o símbolo dos ex pracinhas combatentes da II Grande Guerra.
O Comando Militar do Sudeste (CMSE) é um dos Comandos Militares do Brasil. É o Comando da 2ª Região Militar e da 2ª Divisão de Exército, com sede na cidade de São Paulo (SP).
Em 1979, ao fim da ditadura militar, eu servia no II Batalhão de Guardas, e, como já leram em meus posts anteriores (penso eu), eu era corneteiro.
Além do serviço no batalhão, que consistia em tocar e ensaiar na banda (eu era um trompetista iniciante), e do serviço no QG do Comando Militar, antigo II Exército, eu era o mensageiro da Primeira Compania e do Batalhão quando de prontidão, nas instruções ou em situação real de guerra ou segurança militar. Eu gostava mais das instruções, que apelidávamos de Ralo, nas áreas rurais, ou seja, no mato!
Eram as mais divertidas pois eu não precisava levar o fuzil. Só a automática parabelum, uma Beretta 9mm, na cartucheira e a corneta na mão.
Bom, esse não é ainda o assunto do post atual. Quero voltar ao nosso pequeno general ex combatente na Itália. Já disse antes que não me lembro de seu nome e peço ajuda para meus poucos leitores que, se souberem de alguma notícia, por favor, me avisem.
Eu gostava muito quando tirava serviço no QG do antigo II Exército, atual CMSE, com sede num dos lugares mais lindos de São Paulo, ao lado da Assembléia Legislativa e a poucos passos de locais como Rua Augusta, Avenida Paulista, o bairro dos Jardins e o Parque do Ibirapuera. Era muito interessante essa conjugação de possibilidades para um jovem de 19 anos, basicamente um soldado da Infantaria do Exército Brasileiro, servindo em um Batalhão de Elite. Andar para mim sempre foi uma das coisas que mais gosto de fazer e me acostumei a andar muitos quilômetros carregando muito peso nas costas durante as instruções que tivemos antes de eu ser, digamos, "promovido" a Soldado Corneteiro. Antes de ser corneteiro eu era fuzileiro. Precisei fazer o curso de corneteiro para ser promovido.
Mas vocês já devem estar bem curiosos em saber o que esse general de 4 estrelas tem a ver com a minha história no Exército.
É que, quando se está em "serviço", ou seja, em guarda, você está na segurança do local. A vigilância armada e a escolta e guarda das autoridades que trabalham no expediente da Unidade Militar.
Essa "vigilância" começava as 7 da manhã e terminava 24 horas depois, quando outro grupamento rendia a parada. Render a parada é uma cerimônia onde se faz uma formação dos grupos que se revezam no serviço.
Ao se estar de serviço os guardas se revezam em seus postos e o corneteiro fica à disposição do Oficial de Dia. Além de soldados e cabos há um sargento de dia.
Quando se iniciava o expediente tínhamos que receber os oficiais superiores em formação e eu, o corneteiro, tocava música relativa à patente do oficial. Assim como na Ordem Unida, que é aquela coisa toda de marchar, marcar passo, alto, esquera e direita volver, meia volta e a PQP, existem comandos que são dados em voz alta e/ou o toque da corneta para cada movimento que deverá ser executado (quando o espaço é grande e o grupo de pessoas muito numerosa a corneta é usada em vez da voz). Para todas as atividades no expediente de uma unidade militar existem toques a serem dados em momentos certos e incertos. Os certos sãos os do expediente: alvorada, rancho (almoço), inspeção (de noite antes do toque de silêncio - esse toque é mais bonito do que os de alvorada e de silêncio) e os incertos eram esses da chegada dos oficiais. Nem todos chegavam ao mesmo tempo e se o mais graduado já estivesse no local não precisava tocar para os outros quando chegassem.
Eu, como sabia ler partitura, não tive muita dificuldade em aprender "todos" os toques que estavam registrados no manual. Os para corneta e os para clarim que pode reproduzir mais notas que a corneta.
E o general?
Bem, a história com o general foi a seguinte: eu havia tocado muito de manhã, na parada do Batalhão que precedia o expediente do quartel e a saída das equipes que iam para o serviço no QG. Fui colocado na escala para o serviço no Comando Militar e , ao começar o serviço, os oficiais chegaram exatamente na ordem hierárquica. Toquei para os majores, os tenetes coronéis, os coronéis, os generais de duas e de três estrelas e, ufa, por fim, chega o velhinho quase carregado pelo ajudante de ordens, um outro sargento bem velhinho, e eu, com os lábios completamente moles e rachados iniciei o toque e... Saía mais ar que nota! Eram notas desafinadas a procura de um caminho sem fim para lugar nenhum.
E o general, em posição de sentido e prestando continência, rosto rígido como tronco de árvore, olhava em meus olhos enquanto eu, a tocar, também olhava bem dentro de seus olhos pontiagudos como estalactites de gelo a querer atingir minha alma mais congelada ainda diante da situação.
Ao fim do toque mais longo de minha vida e para o alívio de todos, o general puxa seu ajudante de ordens e vai resmungando até entrar pela portaria do prédio.
Ao longo do dia o expediente foi normal ou, como dizíamos, sem alteração. A única alteração foi em minhas escalas. Nunca mais toquei o QG do Comando Militar durante os dias de semana. Só ia para lá aos sábados e domingos quando só tocava para o astiamento e o arriamento da Bamdeira. O resto do tempo não havia absolutamente nada para se fazer e minhas opções eram, ou dormir a maior parte do tempo, ou sair e "voar" durante a maior parte do tempo. Eu fazia as duas coisas. Só tinha que estar lá em dois horários certos. Claro que não podia sair. Pelas regras poderia até ser preso. Mas isso nem me incomodava pois era uma prática de todos os outros corneteiros, cabos, e eu o único soldado que tirava serviço no Ibirapuera não ia ser uma exceção. Colocava minha farda de passeio e ia encontrar minha namorada para irmos ao cinema, teatro, MASP, ou outra qualquer das muitas opções de São Paulo no fim dos anos 70.
Meus interesses sempre foram diferentes dos interesses da maioria dos soldados. Não em relação às mulheres pois isso era, em larga escala, a primeira coisa que um soldado pensa quando fora do convívio dos seus pares fedidos e com seus coturnos também fedidos a exalar aquele já conhecido aroma de vestiário de Maracanã ao fim de um Fla-Flu ou seja lá o que for.
Diferente da maioria dos soldados eu não sentia necessidade e nem tinha muita experiência com as profissionais do sexo. Acho até que esse alarde todo promovido era mais uma forma de afirmar a masculinidade do que fazer mesmo todo aquele sexo que diziam que faziam.
Eu, se não tinha alguma aventura com namoradinhas, recorria ao que a maioria das pessoas recorrem: treino solo. (isso me lembra aquele filme do Woody Allen...).
Nosso general, coitado, morreu semanas depois. Já estava muito velho e tinha muitos problemas de saúde. Não fiquei chateado com essa mudança. Fiquei triste quando ele morreu. Ele era um Guerreiro e isso se podia ver em seus olhos.
Na verdade a culpa foi minha, um jovem inexperiente que se tivesse passado um pouco de manteiga nos lábios teria tido um dia de serviço normal e sem alterações.
No dia seguine, como punição, dobrei o serviço. Fiquei lá mesmo, junto ao cabo que ia me render, mas tocando a corneta em seu lugar. Ele dormiu o dia inteiro e eu, após sua dica da manteiga, senti o peso da sabedoria que se adquire com a idade e o tempo!
Ao chegar no batalhão, dois dias depois do previsto, levei a corneta para ser guardada. Retirei o bocal, abri a porta de um dos armários que existiam na sala da banda e deixei a corneta lá. Fiquei na sala durante algum tempo, comecei a abrir as portas e examinar os instrumentos que ali eram guardados e, em uma gaveta bem grande, encontrei algo que nunca tinha visto ali: clarins. Dois deles. Peguei o menos amassado, coloquei meu bocal, tampei a saída com um pedaço de pano como surdina improvisada e, lendo as partituras do manual, comecei a descobrir melodias bem bonitas, principalmente o Toque de Silêncio.

3 comentários:

Garcia Leal disse...

Caro Alfredo, achei mesmo muito interessante a sua história, até porquê consigo imaginar o seu sofrimento na entrada do QG (tenho certeza que Vc minimizou a fúria do general...rsrsrsr). Por outro lado... permita-me entrar nessa história prá indicar 2 possíveis nomes: General José Fragomeni e/ou General Milton Tavarez de Souza (sugiro pesquisar no google!).

Finalmente, esclareço que eu era chamado de memória de elefante (rsrsr)..até que fui acometido por um AVC (e depois outro)...e graças a Deus sobrevivi. Assim, é bem provável que tenhamos nos encontrado no QG pois, trabalhei na segurança (núcleo-base rsrsrsr) desses 2 generais; fazia atendimento na recepção do comandante do II Exército; levava as correspondências dos oficiais; levava as resenhas para o temido serviço secreto, fazia suco de laranja para os ajudantes-de-ordens, seguranças do general, etc. Enfim meu amigo...foi muito interessante compartilhar essa história e lembrar dos velhos e bons tempos da caserna. Antonio Garcia Leal - ex-soldado da turma de 1978 - Companhia do Comando do II Exército - soldado Garcia QM - 007/001. Um forte abraço.

José Antonio Meira da Rocha disse...

Hehe! Ótima história de caserna!

Maurício Fuzita disse...

Boa história! Eu acho que servi junto com o Garcia no ano de 1978. Nosso comandante era o Capitão Dias Dourado, mas antes ficou interinamente o Tenente Sapienza. Eu trabalhei na sargenteação junto com os soldados Belini, Mário, Etel e o estafeta cujo nome eu não me recordo agora. Nossa turma dava suporte ao quartel general. Bela época, serviu de lição pra todos nós. Abs Maurício Fuzita