Mas os dias que estes homens passam nas montanhas, são os dias em
Que realmente vivem.
Quando suas cabeças se limpam das teias de aranha, e o sangue corre
com força pelas veias.
Quando os cinco sentidos recobram a vitalidade, e o homem completo
se torna mais sensível, e então já pode ouvir as vozes da natureza, e ver as belezas que só estavam ao alcance dos mais ousados.
Reinhold Messner
17:00 h, 15 de julho / 2030
Arquipélago era o nome daquela área onde as rochas eram empilhadas formando um conjunto de matacões ou boulder. São blocos de pedra de alguns metros de altura, uns de 2 outros de 1, chegando alguns a 5 ou 7 metros. Nesse local se fazia o jogo de matacões onde, na maioria das vezes, um escalador solo escala. Estavam ali não para escalar mas para tentar debelar um incêndio que começou, pela observação de algumas pistas, na rodovia. Era o início da descida de um grande vale que começava no Arquipélago, passava pelo Vale do Jacó e terminava no vale do Cuiabá. Daí seguia-se até Itaipava no município de Petrópolis. O incêndio havia começado em um barranco de capim seco e atingido as samambaias, subindo ao cume onde uma grande rocha formava uma laje de uns 10 metros quadrados. Ao chegar de viatura, um grupo de vinte homens devidamente fardados de gandolas amarelas, capacetes amarelos e coletes x_tudo pretos recheados de equipamentos, desceram rapidamente e se separaram em grupos de 5. Alguns seguravam abafadores, outros já colocavam bombas costais de 20 litros de água e o restante se equipava com foices, maclouds, enxadas e pás. Um pinga fogo foi devidamente abastecido de 5 partes de óleo diesel e 1 de gasolina. Pascoal subiu com Bocão no grupo de montanha para atingir a cabeça do fogo e tentar controla-lo para que não atingisse a área do Parque Nacional. O grupo de 5 tinha Kid como líder, seguido por Pascoal, seu irmão Nerval, Salomon e Bocão. A alguns metros abaixo vinha o grupo de Jóca com Fred, Luluzinha, Mary e Marcelo. Subiram o morro em 10 minutos. Um trajeto de 2 quilômetros. Praticamente correram pela área queimada, bufando e suando como jegues cheios de peso nos lombos. Aí fizeram a linha de combate ao fogo e atacaram em cima da “cabeça”. A linha de fogo subia em uma diagonal desde a estrada até o local onde estavam. Uma grande área queimada se abria no solo do morro à direita e a vegetação, à esquerda, estava estática como a esperar pelo fim.
- Bucha, tá na escuta? – Salomon mal conseguia falar no rádio. Muita fumaça ainda existia ali.
- Prossiga!
- Fiquem aí em baixo garantindo o rescaldo. Não quero ninguém descuidando de nenhuma brasa!
- Pode deixar, Salomon, a gente aqui tá atento.
O Grupo que vinha por último tinha Bucha, Angolano, Ailton e Lico, todos com alguma ferramenta de rescaldo e Alexandre “Foguinho” com um abafador para garantir. Era o grupo do rescaldo e extinção. O trabalho deles consistia em apagar todas as brasas e fagulhas para evitar que cruzem a linha de fogo. Parte do trabalho de extinção do fogo é feito ao mesmo tempo em que se constrói a linha.
A extinção se converte em uma parte independente dos trabalhos de combate, tão logo seja detida a propagação do incêndio e a linha de fogo esteja terminada. Em geral, a extinção consta de duas atividades: 1, apagar todos os focos ativos; 2, Eliminar combustíveis, isto é, a vegetação, seja queimando-os ou afastando para que não contribuam com o incêndio.
- Bucha. QAP, Bucha? – Chamou novamente Salomon pelo rádio.
- Positivo, prossiga.
- Quando terminarmos aqui eu aviso para que vocês subam. Aí vocês ficam aqui em cima enquanto a gente desce para fazer o patrulhamento, ok?
- Entendido.
O patrulhamento é uma atividade necessária nos trabalhos relacionados com a extinção de incêndios. Caminhavam todos pela linha ou pela área queimada, com o fim de controlar e apagar materiais incandescentes ou em brasa que possam causar risco de atravessar a linha.
Muitos deles diziam que era necessário apalpar as cinzas para que pudessem sentir o calor das brasas. Nerval era um que não saia enquanto não ficasse muito tempo sem ver ou sentir alguma brasa.
Nessas horas é que alguns deles paravam e sentavam na área queimada para contemplar a natureza, olhar o céu já estrelado, ficar mais calmos e agüentar mais umas duas ou três horas andando de vez enquanto de lá para cá. Alguns iam descendo aos poucos e parando para cortar algum galho em brasa perto da vegetação e jogá-lo para a área queimada. Deste modo se espalhavam por toda a extensão da linha de fogo e iam apagando as brasas, cortando troncos fumegantes que eram atingidos por borrifos de água das bombas costais. De vez em quando um foco se reacendia e os que estavam com abafadores iam em cima o mais rápido possível para que o oxigênio fosse cortado, daí vinham os outros a fazer o rescaldo dessa área.
Já era noite. 22:00 h. O combate havia terminado.
- Kid, tá na escuta? – Chamou Daniel pelo rádio.
- Positivo, prossiga!
- Já dá prá descer?
- Afirmativo. A turma já está descendo. A gente chega aí bem rápido, chefe.
O último a chegar na estrada foi Nerval. Sempre acontecia isso, ele fazia uma minuciosa busca de brasas pelo solo. Apalpava literalmente.
Antes de regressarem ao Parque Nacional, reuniram-se em círculo e fizeram uma pequena reunião onde era dada a todos a oportunidade de fazer um comentário, dar um feedback a alguém ou a alguns, rirem uns dos outros e se confraternizarem se abraçando uns aos outros. A Brigada de Prevenção e Combate a Incêndios Florestais têm um ótimo preparo físico, tanto os homens quanto as mulheres. Afinal, andam de bicicleta, escalam, caminham pelas trilas do Parque Nacional da Serra dos Órgãos e, alguns, treinam arte marcial, tudo isso regado a muito alongamento.
As montanhas do Rio de Janeiro são abundantes. Estendem-se desde a fronteira com São Paulo, na Serra da Mantiqueira, passam pela Serra da Bocaina, Acima do litoral, formam um imenso paredão quando chegam à Serra dos Órgãos e terminam em Nova Friburgo com os Três Picos e o Pico da Caledônia.
A Serra dos Órgãos é um espetáculo à parte. Quando os primeiros colonos portugueses chegaram ao Rio de Janeiro com suas embarcações entrando pela Bahia da Guanabara já podiam avistar ao longe, do lado norte, uma formação rochosa com picos em forma de tubos que lembravam grandes órgãos de igreja. O cume desta formação atinge 2.263 m de altitude.
Da Bahia da Guanabara até o sopé dessa serra se anda cerca de setenta quilômetros. Uma grande planície separa o litoral da serra. A Região Metropolitana do Rio se estende desde Mangaratiba até Itaboraí por 150 quilômetros. Esta paisagem tem algo de mágico, divino, desperta êxtase e terror ao mesmo tempo. A começar pelas grandes rochas da Cidade do Rio de Janeiro, que impressionam e contém mensagens ocultas, a exemplo da Pedra da Gávea; chegando à Guapimirim, cidade ao sopé da Serra dos Órgãos, onde se começa a subir de uma altitude de 45 metros até chegar a 900 metros, no Mirante do Soberbo. Serra de picos expostos como uma erosão gigante, só que coberta pela Mata Atlântica. Picos que atingem mais de 1000 metros como o Dedo de Deus ou a Agulha do Diabo. São formações rochosas em forma de cones quase cilíndricos que saem da terra lado a lado aos paredões que começam na Pedra do Garrafão e vão até a Pedra do Sino. Dali fazem uma grande curva e terminam do outro lado do vale da Morte nos Portais de Hércules.
Essa nessa terra que Salomon vivia. Trabalhava em sua própria casa prestando serviços de consultoria pela Internet. Tinha tempo livre quando quisesse para se dedicar à proteção do Meio Ambiente. Era como uma compensação pelo que fazia profissionalmente.
Na verdade Salomon prestava serviços de espionagem através de seus conhecimentos de desenvolvimento e análise de sistemas, particularmente em segurança e invasão. Sempre era ajudado por alguém infiltrado. Empresas ou corporações que tivessem interesse em algum segredo, projeto ou qualquer outra coisa, faziam um trabalho de infiltração de um agente que, disfarçado de funcionário, instalava um programa que facilitava a invasão. Às vezes este trabalho demorava meses ou anos até que o “funcionário” tivesse acesso a senhas ou ganhasse a confiança da alta gerência. Salomon era um cracker, ou seja, um hacker do mal, que invadia sistemas, sob encomenda de grandes multinacionais, e roubava segredos industriais e tecnológicos. Às vezes também roubava fórmulas químicas para grandes empresas farmacêuticas. Isso lhe rendia um bom dinheiro porém nos últimos meses tinha se deparado com uma realidade terrível: tudo o que estava fazendo era crime. Essa realidade foi despertada através de um sonho que se repetia quase todas as noites. Sonhava que estava caminhando nas montanhas e via muitos corpos, nas regiões mais baixas, em decomposição. Esses corpos eram de políticos, grandes empresários, pessoas que mantinham seus padrões de vida através de opressão econômica da grande maioria da população mundial que ia empobrecendo a cada dia. Enquanto caminhava ouvia vozes que vinham desses mortos. Essas vozes chamavam seu nome. Ele corria cada vez mais tentando se afastar mas as vozes o chamavam: “ – Salomon, você é um dos nossos. Venha para junto de nós.” – diziam as vozes. Isso estava mexendo com seu espírito e ele se sentia cada dia mais sujo. Acordava suando frio com esse pesadelo e não conseguia dormir mais a noite toda. A partir do início desses pesadelos, Salomon começou a escrever poemas.
MERCADO FINANCEIRO
Nuvens cinzas recheadas
Água podre aqui em baixo
Rola, rola pelo rio
Podre, podre
Fétido correr de águas pesadas
Cheias de grosso caldo negro fétido.
Solução já não encontro
É o furor mercadológico
É o horror corporativo
Escravidão moderna
São as raças, todas elas
Presas neste mundo, só.
Riquezas são acumuladas
Monopólio de poder
É o fim da humanidade
É o começo do fim
Será mesmo necessário?
É preciso acolher?
Este modo de vida
Suntuoso de prazer?
Salomon queria mudar de vida. Estava arrependido e desse dia em diante usaria seus conhecimentos para o bem.
Isso, certamente, poderia lhe custar a própria vida. Mas e daí? Desse dia em diante cuidaria mais de sua alma e das pessoas que amava.
22:00 h 12 de julho / 2080
A noite era de muitas estrelas. Estavam todos reunidos na área no vale do Bonfim, início da travessia Petrópolis – Teresópolis, em direção à Pedra do Sino. Não havia o clarão da lua e eles estavam naquele lugar sem as lanternas acesas. Aos poucos os olhos vão se acostumando com a escuridão. Eles foram fazendo um grande círculo e juntaram as mãos. Alguns fechavam os olhos – eram poucos – e outros simplesmente olhavam para o céu e suspiravam. Os corações foram se aquecendo. Todos perceberam quando isso aconteceu e olhavam–se nos olhos com um grande sorriso na face.
Salomon começou a rezar agradecendo a Deus e em voz baixa ia dizendo:
– Quem caminha na integridade caminha seguro, – ia citando seu xará da Bíblia – quem segue um caminho torto é descoberto (Provérbios 10, 10...). Obrigado meu Deus por nos mostrar este caminho. Sabemos que somos fracos e nos apegamos à matéria, mas tua misericórdia nos mostra nossos erros e podemos abrir nossos olhos espirituais para enxergar o caminho traçado para nós. – E olhando para o grupo perguntou:
– Vocês acham que atravessar esta serra a pé é fácil? – Ninguém respondeu por ora e após uns dois minutos Heitor disse:
– Sal, qual é a resposta certa? – Ele estava provocando o “Sensei”.
– A resposta não está pronta. Você tem que começar a buscar. Você tem que subir a montanha da maneira certa para encontrar a resposta. – Ele sempre dizia isso, uma vez por ano, há mais de trinta anos. Uma vez ao ano era a freqüência deste ritual. Eles se conheciam a vinte anos e Salomon dava aulas constantes a Heitor desde então. Treinavam todos os dias e às vezes vinham até o local onde estavam reunidos para treinar mais especificamente com a espada de madeira (boken) e o bastão. Os treinos eram rigorosos mas Salomon não era um déspota nem um centralizador de idéias. Queria que todos os seus liderados tivessem convicções bem definidas mas fazia–os pensar para chegarem às suas conclusões. Aí é que entrava seu principal Dom: o de instigar as mentes. Ele era provocador o tempo todo e Heitor gostou dessa dinâmica desde o princípio em que conheceu Sal, como ele o chamava.
– Os verdadeiros filhos e filhas da terra são aqueles que conseguem perceber, entender profundamente sua missão como preservadores e cultivadores, e agir enquanto sujeitos da mãe natureza. - continuou Sal levantando os braços com os punhos cerrados como a chamar um exército para a guerra. Mas não havia nunca em sua face uma expressão raivosa ou triste. Enquanto dizia suas palavras ia distribuindo sorrisos a todos. Era um sorriso calmo e tranqüilizante. Já não lhe atacavam fantasmas passados de erros e pecados. Sua vida era totalmente dedicada àqueles jovens que o seguiam.
– Existe um termo japonês bem antigo. Shizen Tota. É o ajustamento natural das coisas. Não há mal que dure e também não há bem que não acabe. Todo crescimento começa a decrescer a partir de seu ápice, e todo decréscimo experimenta um crescimento a partir de seu limite inferior. É esta maravilhosa verdade que produz o equilíbrio e organização natural das coisas neste universo. É assim que funciona o universo. Nosso espírito, quando entra em contato com o Tao, vê a verdade da revelação Divina quando entende sua raiz de desobediência herdada de nossos primeiros pais. Aí percebemos que nós é que fizemos este mundo chegar a esse ponto: desordem, caos, aquecimento do planeta, etc... vocês sabem... vocês sabem.
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