27 setembro 2006

Sabedoria

A sabedoria é conhecer o objetivo da vida e saber como alcançá-lo.

Pode-se alcançar a sabedoria por três caminhos. O primeiro caminho é o da meditação. Este é o mais nobre deles. O segundo caminho é o da imitação. Este é o caminho mais fácil e menos satisfatório. Em terceiro lugar, existe o caminho da experiência. Este é o caminho mais difícil - Confúcio.

O mérito do homem não reside no conhecimento que tem, mas no esforço que despendeu para alcançá-lo.
Se quiser estudar a si mesmo - olhe para o coração dos outros. Se quiser estudar ous outros - olhe para dentro de seu próprio coração.
Sua alma é tanto o seu juiz quanto o seu santuário protetor. Sua alma é o seu mais alto juiz.

Aquele que fica na ponta dos pés não se agüentará em pé por muito tempo, como aquele que é muito orgulhoso não pode servir de exemplo. - Lao Tze.

Aquele que procura a sabedoria já é sábio, porém, aquele que julga já tê-la encontrado é estúpido.

O sábio não deseja mudar sua situação, pois sabe que é possível cumprir a lei do Universo, a lei do amor, em qualquer situação.

O sábio procura tudo dentro de si mesmo; o louco busca tudo nos outros. - Confúcio.

O sábio sabe espontaneamente como agir, sem busca-lo, porque tem o divino dentro de si. Quanto mais você procurar e buscar, menos há de saber. - Lao Tze.

Tente estabelecer um silêncio interior em você mesmo, um silêncio completo de lábios e coração. e então ouvirá como Deus nos fala, e saberá como cumprir sua vontade.
Quanto mais perturbada uma pessoa fica com as outras e com as circunstâncias, e quanto mais satisfeita fica consigo mesma, mais longe ela há de ficar da sabedoria.

26 setembro 2006

A Morte

Há qualquer coisa na alma que não pode morrer, que não pode ser afetada pela morte.

O que derrota os outros é forte; o que derrota a si mesmo é poderoso, e o que sabe que quando morre não será destruído e eterno. - Lao Tze

As pessoas nascem e vivem apenas como manifestações ou pedaços de Deus; portanto, elas não podem ser completamente destruídas. Elas podem desaparecer diante de nossos olhos, mas não podem ser destruídas. Um ficou no meu campo de visão por muito tempo, outro saiu dele muito rapidamente; mas não posso afirmar que o primeiro tenha existido mais e o segundo menos. Não importa que um homem passe por minha janela depressa ou devagar. Sei definitivamente que ele existiu no tempo anterior àquele em que o vi, e que ele existirá no tempo depois de desaparecer de minha vista.

O que sabe que o fundamento desta vida é o espírito está fora de perigo. Quando ele fechar as portas de seus sentidos no final de sua vida, ele não terá inquietações. - Lao Tze

A vida real existe fora do tempo e do espaço; portanto, a morte pode mudar a manifestação da vida neste mundo, mas não pode destruir a própria vida.
Tente viver com a parte de sua alma que compreende a eternidade, que não tem medo da morte. E esta parte de sua alma é amor.

25 setembro 2006

O Futuro

Se a vida é boa, então a morte, que é parte necessária da vida, também é boa.

A vida real existe apenas no presente. O futuro não tem significação.

O real objetivo da vida é o cumprimento das leis naturais (leis do Universo), que existem eternamente: elas sempre existiram, existem agora, e existirão para sempre.

Não se preocupe com o que acontecerá algum dia, em algum lugar, em um ponto longínquo, em um tempo por vir; pense e fique atento ao que acontece agora, aqui, neste local.

Tão logo você se entrega ao futuro ou ao passado você se afasta de Deus, e se sente só, abandonado e escravizado.

O futuro não existe, realmente. Ele é criado por nós, no presente.

Há uma circunstância na qual o indivíduo se sente arquiteto de sua vida. Ela ocorre quando ele concentra todos os seus esforços, todo o seu intelecto e todo o seu pensamento no momento presente.

24 setembro 2006

Disciplina e Virtude



Gosto da Montanha
Vive-se mal nas cidades
Nelas
Se encontram
Muitos seres em cio

Não é melhor cair nas mãos
De um assassino
Do que nos sonhos
De uma mulher no cio?

Olhai para esses homens
Seus olhos o dizem
Nada melhor
Conhecem na terra
Do que deitar-se
Com uma mulher

Têm muita lama
No fundo da alma
Infelizes deles
Se sua lama tiver ainda
Espírito

Se ao menos fôsseis
Animais completos!
Mas o animal
É de todo inocente

Assim caminha o corpo
Ao longo da história
Evoluindo e lutando

E o espírito?
O que é para o corpo?

É arauto
Companheiro e eco
De suas
Lutas e vitórias

Quando vosso coração
Borbulha
Ampla e plenamente
Como um rio
Furioso
Perigo e bênção
Para o ribeirinho

Alí está a fonte
De vossa virtude

Quando desprezais
O que é agradável
A cama fofa
O conforto
E a preguiça

Alí está a fonte
De vossa virtude

Verdadeiramente
Um novo bem e
Um novo mal
Eis o que é
Então
Vossa virtude

Essa nova virtude
É poder
Um pensamento soberano
Um sol de ouro
A serpente do conhecimento
___________________
(Baseado em "Assim Falava Zaratustra" - Friedrich Wilhelm Nietzsche)
LIVRO COMPLETO EM INGLÊS

21 setembro 2006

O Eu Interior

O melhor e mais importante objetivo de todo mundo é seu eu interior, seu ser espiritual.
A pessoa que conhece todas as ciências mas não conhece a si mesma, é pobre e ignorante. Aquele que não conhece nada a não ser seu eu interior, espiritual, é uma pessoa esclarecida.
Quando sentir desejo de poder, deve ficar em solidão por algum tempo.

O caminho da fama passa pelos palácios, o caminho para a felicidade passa pelos mercados, e o caminho da virtude passa pelos desertos. (Provérbio Chinês)

Todo mundo tem sempre um lugar onde ficar a salvo de seus infortúnios, este lugar é a sua alma.
Se você pudesse ao menos saber quem é, todos os seus problemas pareceriam totalmente desnecessários e triviais.

Tenho aprendido isso a duras penas. Mas sei que tudo o que acontece comigo me faz caminhar para essa grande descoberta.
Se demoro a entender essa verdade é porque não tenho procurado me conhecer e perco tempo buscando outras coisas!

A Sabedoria

Sabedoria é compreender como a verdade eterna pode ser aplicada à vida.

A ciência é raramente ligada à sabedoria. Uma pessoa erudita sabe muitas coisas inúteis. Uma pessoa sábia sabe poucas coisas, porém, tudo o que sabe é necessário à humanidade e a ela mesma.

Aquele que compreende a própria alma compreenderá a fagulha divina dentro de si. (Cícero)

Os que são sábios não podem ser suficientemente educados, e os que são educados não podem ser suficientemente sábios. (Lao Tze)

A bondade que nos é dada pela sabedoria, em comparação a todo outro conhecimento, é como seria, no deserto, um vaso de água em comparação a montanhas de ouro.
A pureza é uma condição para a sabedoria; e a conseqüência da sabedoria é a paz de sua alma.
O homem que segue seus desejos muda de atitude com o tempo. Em breve ele não ficará mais satisfeito com as coisas que faz.

Aqueles que não têm nada a perder são muito ricos. (Provérbio Chinês)

A pessoa que é sábia jamais se considera sábia. E ninguém poderá considerar-se sábio tendo diante de si a imagem de Deus.
A sabedoria é sem limites, e quanto mais alguém se aproxima dela, mais importante ela se tornará para sua vida.

Todo indivíduo pode sempre aprimorar-se.

19 setembro 2006

Figueira Branca


Ele entrou na trilha por volta das 7:45. O dia já estava bem claro e ele conseguiu chegar ao início da picada em poucas horas. Sempre que entrava por este caminho receava pela sua segurança. Era um caminho freqüentado por caçadores. Picada de caçador sempre é perigosa. Eles não gostam de encontrar estranhos e, dependendo do humor deles, podem até matar.

Seguiu em silêncio e devagar na esperança de chegar ao local da figueira branca com o mínimo de barulho possível.

Precisa ter muita experiência em mato para não ser surpreendido em emboscada. Com seu treinamento militar aprendera muita coisa. Já estava acostumado a passar desapercebido. Quando se alistou, um amigo seu, mais velho, tinha lhe dado um bom conselho:

- Pedro, não faça nada para aparecer. Passe desapercebido e nunca irão mexer com você.

Ele sempre fora discreto, introspectivo. Não era de falar com ninguém à toa. Era uma pessoa difícil de conviver por causa de sua quietude. Falava pouco, mas quando começava a conversar de um assunto que lhe fosse apaixonante... Sai de perto. Seus olhos brilham.

Não tivera muitas namoradas e a maioria das vezes em que apaixonou-se, só ele mesmo sabia disso.

O Dia estava quente mesmo sendo inverno. Fazia mais de quinze dias que não chovia e o ar estava pesado por causa da fumaça das queimadas.

Foi quase sem perceber, perdido em seus pensamentos, que ele chegou perto daquela imensa árvore.

Era uma figueira branca com uns vinte metros de altura. Seu tronco, na base, devia ter uns 7 metros de diâmetro. Era raro ver uma árvore desse tamanho.

Geralmente as outras árvores que vivem próxima a uma figueira são abraçadas por ela. A figueira é uma árvore diferente de qualquer outra que ele conhecia. Ela se molda a qualquer coisa.

Lembrou-se de uma figueira plantada a beira de uma rua de paralelepípedos. Ela cresceu e suas raízes cobriram o meio-fio. Parecia até que os construtores da rua tinham colocado as pedras em baixo da árvore.

Sentou-se perto dela e começou a pensar em quantos pássaros já haviam feito ninho em seus galhos; quantos caxinguelês já tinham dormido ali; quantas preguiças, com seus filhotes nas costas, já tinham passado temporadas em cima da grande figueira.

Enquanto pensava lhe veio na mente uma lembrança: Quantos locais e quantas cidades visitou. Morou em várias cidades diferentes e aprendera muitos costumes e sotaques. Mas sempre quisera estar só em um lugar onde os outros não lhe incomodassem. Sempre tivera uma inquietude que lhe fazia mudar sempre. Mudava de lugar, de casa, de cidade, de trabalho, fazia muitas coisas ao mesmo tempo.

Aquela árvore era diferente dele.

Quantos anos estava lá? Com que paciência cumpria o seu dever! Dever de árvore.

Eu não sou uma árvore – pensou - mas queria ter esta paciência. Aguardar os momentos a que eu fui destinado, aguardar o fluxo da vida e correr nele como quem desce uma corrente de rio em sua canoa até o destino. Sem pressa, confiante e sabendo que, no fim, vai dar tudo certo.

Um gato Maracajá apareceu. O gato não o percebeu nem sentiu seu cheiro pois eu estava parado, com roupas camufladas – para não ser visto pelos caçadores – e sentado contra o vento. O animal passou a uns dez metros de onde ele estava, parou agachado como a olhar para uma presa qualquer e ficou ali, estacado. Se eu olhar para outro lado –pensou ele - é bem capaz de não vê-lo mais pois seu pelo era uma camuflagem natural.

Começou a pensar na primeira instrução militar, fora orientado a usar de todos os recursos que dispusesse para não ser visto por ninguém. Os recursos eram a própria terra que, misturada a água, virava lama. Tinham que rastejar pela lama fazendo com que seus corpos ficassem da cor natural. Verde e marrom são as cores da mata.

Passou horas contemplando a mata, as árvores, os pássaros e os animais que passavam por ali. Alguns o viam ou sentiam seu cheiro se assustavam e corriam, outros, como os quatis, olhavam por alguns instantes, desconfiados, e logo saiam guinchando. Alguns macacos-prego passaram, uma família de dez ou quinze, por cima das copas das árvores, parando de vez em quando para comer frutas ou alguns insetos e logo seguiam seu caminho.

De repente se fez um silêncio forte, profundo, nem o vento chiava entre as folhas. Teve a impressão que a figueira se destacava de toda a vegetação. Não que ela tivesse falado com ele mas, interiormente, teve a impressão de que ela lhe chamara. Olhou atentamente e procurou ouvir algum som que viesse dela mas não conseguiu ouvir nada. Só tinha a impressão de que ela estava diferente. Ela estava mais atraente, mais brilhante, mais bonita. Teve vontade de levantar e caminhar até ela e foi isso que fez. Tocou-a com uma das mãos e foi apalpando seu tronco enquanto dava voltas ao redor dela. Começou a abraça-la. É claro que não conseguiria fechar os seus braços. Talvez umas dez pessoas pudessem fazer isso.

Ficou ali abraçado a ela e teve muitas sensações novas. Sentia como se fizesse parte de toda aquela floresta. Sentiu sua energia fluir por seu corpo. Sentiu a relva, as folhas. Sentia amor por tudo aquilo. Lágrimas desciam de seus olhos num choro simples e sincero como se toda a dor do mundo passasse por ele. Pensamentos passavam pela sua mente como se estivesse assistindo a um filme. Cenas de desmatamento, árvores gigantes sendo derrubadas por máquinas enormes. Florestas sendo queimadas. Rios antes limpos agora sendo poluídos por lixo e produtos químicos. Animais mortos. Homens, mulheres e crianças mortas aos montes, sendo empilhados em montes de carne e sangue.

Chorou alto e convulsivamente. Não conseguia nem queria largar a árvore. Começou a pedir perdão como se ele fosse o culpado por aquela destruição toda. Teve vontade de ficar ali, de não voltar mais para a civilização. Porcaria de civilização que traz a destruição. Quanta ignorância. Quanta ganância. Quanta corrupção.

Aos poucos foi parando de chorar e não sentia mais seus braços. Eles não estavam cansados de ficar naquela posição. Uma onda de calor misturada a uma brisa suave e fria inundava seu ser. Começou a sentir a água da chuva que caía e isso era bom. Bebeu daquela água mas não abria a boca para isso. Seus olhos estavam fechados mas via tudo ao redor. Sua visão era em 360 graus. Estava na copa da árvore. Sem saber como nem porque, conseguia ver tudo ao seu redor. Ele era aquela árvore. Isso acelerou seu coração. Como poderia ele estar vendo tudo isso, sentindo todas essas sensações estranhas? Teve vontade de largar a árvore mas não conseguiu. Estava preso a ela. Isso não o perturbou muito e, aos poucos seu coração voltou a bater normalmente. Algo lhe dizia que tudo estava bem.

O sol estava se pondo atras da serra. A escuridão chegara trazendo outras criaturas. Ele não se lembrava de mais nada. Só sabia que este era e sempre foi seu lugar. Podia ver as estrelas todas brilhando no céu. Alguns morcegos sobrevoavam em vôos rasantes e o som da correnteza do riacho que passava ao lado embalou seu sono. Sono de árvore.



Prova, prova a pensare un po´ diverso

Niente da grandi dei fu fabbricato

Ma il creato s´è creato da sé

Cellule fibre energia e calore.

Ruota dentro una nube la terra

Gonfia al caldo tende le membra.

Ah la madre è pronta partorità.

Già inarca il grembo

Vuole un figlio e lo avrà

Figlio di terra e di elettricità.

Strati grigi di lava e di corallo

Cieli umidi e senza colori

Ecco il mondo sta respirando

Muschi e licheni verdi spugne di terra

Fanno da serra al germoglio che verrà.



Informi esseri il mare vomita

Sospinti a cumuli su spiagge putride

I branchi torbidi la terra ospita

Strisciando salgono sui loro simili

E il tempo cambierà i corpi flaccidi

In forme utili a sopravvivere.

Un sole misero il verde stempera

Tra felci giovani di spore cariche

E suoni liberi in cerchino muovono



(L´evoluzione: Banco del Mutuo Soccorso)

18 setembro 2006

Observador Atento

Se tudo que há em mim
É química
Não há razão para o espírito
Se tudo o que eu sinto
São
Simples reações
Em minhas células
Não há espaço
Para o
Intelecto

Razão, emoção, sentimento
São só reações?
São só o que meu sangue
Carrega?
Há espaço para a alma?

Silêncio!

O coração sente
Lateja a
Mente

Mente só

Pensamentos que vem
E vão
E eu
Observador atento
Vejo que
De fora
Sou
Eu mesmo

Caminho só
E vejo que de
Dentro
Observado
Sinto
Que este corpo é

17 setembro 2006

Compunção















Mas os dias que estes homens passam nas montanhas, são os dias em
Que realmente vivem.
Quando suas cabeças se limpam das teias de aranha, e o sangue corre
com força pelas veias.
Quando os cinco sentidos recobram a vitalidade, e o homem completo
se torna mais sensível, e então já pode ouvir as vozes da natureza, e ver as belezas que só estavam ao alcance dos mais ousados.
Reinhold Messner


17:00 h, 15 de julho / 2030

Arquipélago era o nome daquela área onde as rochas eram empilhadas formando um conjunto de matacões ou boulder. São blocos de pedra de alguns metros de altura, uns de 2 outros de 1, chegando alguns a 5 ou 7 metros. Nesse local se fazia o jogo de matacões onde, na maioria das vezes, um escalador solo escala. Estavam ali não para escalar mas para tentar debelar um incêndio que começou, pela observação de algumas pistas, na rodovia. Era o início da descida de um grande vale que começava no Arquipélago, passava pelo Vale do Jacó e terminava no vale do Cuiabá. Daí seguia-se até Itaipava no município de Petrópolis. O incêndio havia começado em um barranco de capim seco e atingido as samambaias, subindo ao cume onde uma grande rocha formava uma laje de uns 10 metros quadrados. Ao chegar de viatura, um grupo de vinte homens devidamente fardados de gandolas amarelas, capacetes amarelos e coletes x_tudo pretos recheados de equipamentos, desceram rapidamente e se separaram em grupos de 5. Alguns seguravam abafadores, outros já colocavam bombas costais de 20 litros de água e o restante se equipava com foices, maclouds, enxadas e pás. Um pinga fogo foi devidamente abastecido de 5 partes de óleo diesel e 1 de gasolina. Pascoal subiu com Bocão no grupo de montanha para atingir a cabeça do fogo e tentar controla-lo para que não atingisse a área do Parque Nacional. O grupo de 5 tinha Kid como líder, seguido por Pascoal, seu irmão Nerval, Salomon e Bocão. A alguns metros abaixo vinha o grupo de Jóca com Fred, Luluzinha, Mary e Marcelo. Subiram o morro em 10 minutos. Um trajeto de 2 quilômetros. Praticamente correram pela área queimada, bufando e suando como jegues cheios de peso nos lombos. Aí fizeram a linha de combate ao fogo e atacaram em cima da “cabeça”. A linha de fogo subia em uma diagonal desde a estrada até o local onde estavam. Uma grande área queimada se abria no solo do morro à direita e a vegetação, à esquerda, estava estática como a esperar pelo fim.
- Bucha, tá na escuta? – Salomon mal conseguia falar no rádio. Muita fumaça ainda existia ali.
- Prossiga!
- Fiquem aí em baixo garantindo o rescaldo. Não quero ninguém descuidando de nenhuma brasa!
- Pode deixar, Salomon, a gente aqui tá atento.
O Grupo que vinha por último tinha Bucha, Angolano, Ailton e Lico, todos com alguma ferramenta de rescaldo e Alexandre “Foguinho” com um abafador para garantir. Era o grupo do rescaldo e extinção. O trabalho deles consistia em apagar todas as brasas e fagulhas para evitar que cruzem a linha de fogo. Parte do trabalho de extinção do fogo é feito ao mesmo tempo em que se constrói a linha.
A extinção se converte em uma parte independente dos trabalhos de combate, tão logo seja detida a propagação do incêndio e a linha de fogo esteja terminada. Em geral, a extinção consta de duas atividades: 1, apagar todos os focos ativos; 2, Eliminar combustíveis, isto é, a vegetação, seja queimando-os ou afastando para que não contribuam com o incêndio.
- Bucha. QAP, Bucha? – Chamou novamente Salomon pelo rádio.
- Positivo, prossiga.
- Quando terminarmos aqui eu aviso para que vocês subam. Aí vocês ficam aqui em cima enquanto a gente desce para fazer o patrulhamento, ok?
- Entendido.
O patrulhamento é uma atividade necessária nos trabalhos relacionados com a extinção de incêndios. Caminhavam todos pela linha ou pela área queimada, com o fim de controlar e apagar materiais incandescentes ou em brasa que possam causar risco de atravessar a linha.
Muitos deles diziam que era necessário apalpar as cinzas para que pudessem sentir o calor das brasas. Nerval era um que não saia enquanto não ficasse muito tempo sem ver ou sentir alguma brasa.
Nessas horas é que alguns deles paravam e sentavam na área queimada para contemplar a natureza, olhar o céu já estrelado, ficar mais calmos e agüentar mais umas duas ou três horas andando de vez enquanto de lá para cá. Alguns iam descendo aos poucos e parando para cortar algum galho em brasa perto da vegetação e jogá-lo para a área queimada. Deste modo se espalhavam por toda a extensão da linha de fogo e iam apagando as brasas, cortando troncos fumegantes que eram atingidos por borrifos de água das bombas costais. De vez em quando um foco se reacendia e os que estavam com abafadores iam em cima o mais rápido possível para que o oxigênio fosse cortado, daí vinham os outros a fazer o rescaldo dessa área.
Já era noite. 22:00 h. O combate havia terminado.
- Kid, tá na escuta? – Chamou Daniel pelo rádio.
- Positivo, prossiga!
- Já dá prá descer?
- Afirmativo. A turma já está descendo. A gente chega aí bem rápido, chefe.
O último a chegar na estrada foi Nerval. Sempre acontecia isso, ele fazia uma minuciosa busca de brasas pelo solo. Apalpava literalmente.
Antes de regressarem ao Parque Nacional, reuniram-se em círculo e fizeram uma pequena reunião onde era dada a todos a oportunidade de fazer um comentário, dar um feedback a alguém ou a alguns, rirem uns dos outros e se confraternizarem se abraçando uns aos outros. A Brigada de Prevenção e Combate a Incêndios Florestais têm um ótimo preparo físico, tanto os homens quanto as mulheres. Afinal, andam de bicicleta, escalam, caminham pelas trilas do Parque Nacional da Serra dos Órgãos e, alguns, treinam arte marcial, tudo isso regado a muito alongamento.
As montanhas do Rio de Janeiro são abundantes. Estendem-se desde a fronteira com São Paulo, na Serra da Mantiqueira, passam pela Serra da Bocaina, Acima do litoral, formam um imenso paredão quando chegam à Serra dos Órgãos e terminam em Nova Friburgo com os Três Picos e o Pico da Caledônia.
A Serra dos Órgãos é um espetáculo à parte. Quando os primeiros colonos portugueses chegaram ao Rio de Janeiro com suas embarcações entrando pela Bahia da Guanabara já podiam avistar ao longe, do lado norte, uma formação rochosa com picos em forma de tubos que lembravam grandes órgãos de igreja. O cume desta formação atinge 2.263 m de altitude.
Da Bahia da Guanabara até o sopé dessa serra se anda cerca de setenta quilômetros. Uma grande planície separa o litoral da serra. A Região Metropolitana do Rio se estende desde Mangaratiba até Itaboraí por 150 quilômetros. Esta paisagem tem algo de mágico, divino, desperta êxtase e terror ao mesmo tempo. A começar pelas grandes rochas da Cidade do Rio de Janeiro, que impressionam e contém mensagens ocultas, a exemplo da Pedra da Gávea; chegando à Guapimirim, cidade ao sopé da Serra dos Órgãos, onde se começa a subir de uma altitude de 45 metros até chegar a 900 metros, no Mirante do Soberbo. Serra de picos expostos como uma erosão gigante, só que coberta pela Mata Atlântica. Picos que atingem mais de 1000 metros como o Dedo de Deus ou a Agulha do Diabo. São formações rochosas em forma de cones quase cilíndricos que saem da terra lado a lado aos paredões que começam na Pedra do Garrafão e vão até a Pedra do Sino. Dali fazem uma grande curva e terminam do outro lado do vale da Morte nos Portais de Hércules.
Essa nessa terra que Salomon vivia. Trabalhava em sua própria casa prestando serviços de consultoria pela Internet. Tinha tempo livre quando quisesse para se dedicar à proteção do Meio Ambiente. Era como uma compensação pelo que fazia profissionalmente.
Na verdade Salomon prestava serviços de espionagem através de seus conhecimentos de desenvolvimento e análise de sistemas, particularmente em segurança e invasão. Sempre era ajudado por alguém infiltrado. Empresas ou corporações que tivessem interesse em algum segredo, projeto ou qualquer outra coisa, faziam um trabalho de infiltração de um agente que, disfarçado de funcionário, instalava um programa que facilitava a invasão. Às vezes este trabalho demorava meses ou anos até que o “funcionário” tivesse acesso a senhas ou ganhasse a confiança da alta gerência. Salomon era um cracker, ou seja, um hacker do mal, que invadia sistemas, sob encomenda de grandes multinacionais, e roubava segredos industriais e tecnológicos. Às vezes também roubava fórmulas químicas para grandes empresas farmacêuticas. Isso lhe rendia um bom dinheiro porém nos últimos meses tinha se deparado com uma realidade terrível: tudo o que estava fazendo era crime. Essa realidade foi despertada através de um sonho que se repetia quase todas as noites. Sonhava que estava caminhando nas montanhas e via muitos corpos, nas regiões mais baixas, em decomposição. Esses corpos eram de políticos, grandes empresários, pessoas que mantinham seus padrões de vida através de opressão econômica da grande maioria da população mundial que ia empobrecendo a cada dia. Enquanto caminhava ouvia vozes que vinham desses mortos. Essas vozes chamavam seu nome. Ele corria cada vez mais tentando se afastar mas as vozes o chamavam: “ – Salomon, você é um dos nossos. Venha para junto de nós.” – diziam as vozes. Isso estava mexendo com seu espírito e ele se sentia cada dia mais sujo. Acordava suando frio com esse pesadelo e não conseguia dormir mais a noite toda. A partir do início desses pesadelos, Salomon começou a escrever poemas.


MERCADO FINANCEIRO

Nuvens cinzas recheadas
Água podre aqui em baixo
Rola, rola pelo rio
Podre, podre
Fétido correr de águas pesadas
Cheias de grosso caldo negro fétido.

Solução já não encontro
É o furor mercadológico
É o horror corporativo
Escravidão moderna
São as raças, todas elas
Presas neste mundo, só.

Riquezas são acumuladas
Monopólio de poder
É o fim da humanidade
É o começo do fim

Será mesmo necessário?
É preciso acolher?
Este modo de vida
Suntuoso de prazer?

Salomon queria mudar de vida. Estava arrependido e desse dia em diante usaria seus conhecimentos para o bem.
Isso, certamente, poderia lhe custar a própria vida. Mas e daí? Desse dia em diante cuidaria mais de sua alma e das pessoas que amava.

22:00 h 12 de julho / 2080

A noite era de muitas estrelas. Estavam todos reunidos na área no vale do Bonfim, início da travessia Petrópolis – Teresópolis, em direção à Pedra do Sino. Não havia o clarão da lua e eles estavam naquele lugar sem as lanternas acesas. Aos poucos os olhos vão se acostumando com a escuridão. Eles foram fazendo um grande círculo e juntaram as mãos. Alguns fechavam os olhos – eram poucos – e outros simplesmente olhavam para o céu e suspiravam. Os corações foram se aquecendo. Todos perceberam quando isso aconteceu e olhavam–se nos olhos com um grande sorriso na face.
Salomon começou a rezar agradecendo a Deus e em voz baixa ia dizendo:
– Quem caminha na integridade caminha seguro, – ia citando seu xará da Bíblia – quem segue um caminho torto é descoberto (Provérbios 10, 10...). Obrigado meu Deus por nos mostrar este caminho. Sabemos que somos fracos e nos apegamos à matéria, mas tua misericórdia nos mostra nossos erros e podemos abrir nossos olhos espirituais para enxergar o caminho traçado para nós. – E olhando para o grupo perguntou:
– Vocês acham que atravessar esta serra a pé é fácil? – Ninguém respondeu por ora e após uns dois minutos Heitor disse:
– Sal, qual é a resposta certa? – Ele estava provocando o “Sensei”.
– A resposta não está pronta. Você tem que começar a buscar. Você tem que subir a montanha da maneira certa para encontrar a resposta. – Ele sempre dizia isso, uma vez por ano, há mais de trinta anos. Uma vez ao ano era a freqüência deste ritual. Eles se conheciam a vinte anos e Salomon dava aulas constantes a Heitor desde então. Treinavam todos os dias e às vezes vinham até o local onde estavam reunidos para treinar mais especificamente com a espada de madeira (boken) e o bastão. Os treinos eram rigorosos mas Salomon não era um déspota nem um centralizador de idéias. Queria que todos os seus liderados tivessem convicções bem definidas mas fazia–os pensar para chegarem às suas conclusões. Aí é que entrava seu principal Dom: o de instigar as mentes. Ele era provocador o tempo todo e Heitor gostou dessa dinâmica desde o princípio em que conheceu Sal, como ele o chamava.
– Os verdadeiros filhos e filhas da terra são aqueles que conseguem perceber, entender profundamente sua missão como preservadores e cultivadores, e agir enquanto sujeitos da mãe natureza. - continuou Sal levantando os braços com os punhos cerrados como a chamar um exército para a guerra. Mas não havia nunca em sua face uma expressão raivosa ou triste. Enquanto dizia suas palavras ia distribuindo sorrisos a todos. Era um sorriso calmo e tranqüilizante. Já não lhe atacavam fantasmas passados de erros e pecados. Sua vida era totalmente dedicada àqueles jovens que o seguiam.
– Existe um termo japonês bem antigo. Shizen Tota. É o ajustamento natural das coisas. Não há mal que dure e também não há bem que não acabe. Todo crescimento começa a decrescer a partir de seu ápice, e todo decréscimo experimenta um crescimento a partir de seu limite inferior. É esta maravilhosa verdade que produz o equilíbrio e organização natural das coisas neste universo. É assim que funciona o universo. Nosso espírito, quando entra em contato com o Tao, vê a verdade da revelação Divina quando entende sua raiz de desobediência herdada de nossos primeiros pais. Aí percebemos que nós é que fizemos este mundo chegar a esse ponto: desordem, caos, aquecimento do planeta, etc... vocês sabem... vocês sabem.
_____

14 setembro 2006

Mudanças na Vida

A vida consiste em numerosas, invisíveis, inperceptíveis mudanças que começaram no nascimento e terminam na morte. Não é possível a nós, humanos, observá-las todas.

"Em verdade, em verdade eu vos digo, se o grão de trigo que cai em terra não morre, ele fica só; se, ao contrário, ele morrer, produzirá fruto em abundância. Quem ama a sua vida perde-a; e quem deixa de se apegar a ela neste mundo a guardará para a vida eterna." João 12:24-25

A vida está sempre mudando, e só o ignorante não olha para a profundeza das coisas.
Por que temer tanto a mudança? Nada neste mundo pode ser feito sem mudança. Apenas uma regra permanece constante: não faça nada de desumano aos outros.

Tudo neste mundo floresce, cresce, e volta às suas raízes. Voltar às nossas raízes significa tornar-se unido à natureza; tornar-se unido à natureza implica eternidade. A destruição do seu corpo não contém nenhum perigo em si mesma." Lao Tse

A morte é uma mudança para uma forma com a qual nosso espírito é unido. Ninguém deve confundir a forma com as coisas que ela é unida.

Canção Noturna

É noite
Todas as fontes
Falam mais alto
Agora
Jorram mais alto

Minha alma também
É fonte
Que jorra

É noite
Todas as canções
Dos amantes
Despertam

Minha alma
É canção de um homem
Que ama

Insaciado está
Meu coração
Quero elevar a voz
Há em mim um desejo de amor
Que fala a linguagem
Do amor

Sou luz
Ah! se eu fosse noite
Mas minha solidão
É estar rodeado
De luz
Ah! se eu fosse
Sombra e trevas
Como sorveria meu leite
Dos seios da luz!

Ah! tudo é gelo
Em torno de mim
Minha mão se queima
Ao tocar o gelo!
Ah! tenho uma sede
Que suspira
Por tua sede!

É noite
Por que hei de ser luz?
E ter sede da noite?
E ser solidão?

É noite
Todas as fontes
Falam mais alto
Como uma fonte
Brota agora
Meu desejo de falar

Minha alma
Também é uma fonte
Borbulhante

É noite
Todas as canções
Dos amantes
Despertam

Minha alma
É canção de um homem
Que ama
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(Baseado em "Assim Falava Zaratustra" - Friedrich Wilhelm Nietzsche)
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