É com muita alegria que posto aqui minha estréia na produção acadêmica, meu primeiro artigo científico, publicado na Revista de Desenvolvimento Pessoal do Laboratório de Pesquisa em Tecnologias da Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro - LATEC-UFRJ:
_________________________________________________________
O
DESENVOLVIMENTO DA RESILIÊNCIA ATRAVÉS DE CAMINHADAS DE PEQUENO E LONGO CURSO –
TREKKING
Cristina Haguenauer
Alfredo José Rebello
Resumo
Este
artigo apresenta o conceito de resiliência com enfoque para o desenvolvimento
desta competência em praticantes de caminhadas de pequeno e de longo curso.
Veremos como esta competência pode ser desenvolvida a partir da capacidade de
resposta de um sujeito aos desafios e dificuldades que essas caminhadas
apresentam e como o praticante reage aos estímulos, desenvolvendo a capacidade
de recuperação diante de desafios e de circunstâncias desfavoráveis.
Palavras Chave:
Resiliência, Esportes de Aventura, Superação
Resilience Development Through Small and Long Course
Walks - Trekking
Abstract
This article introduces the concept
of with a focus on the development of this competence hikers long haul. We'll
see how this skill can be developed from the responsiveness of a subject to the
challenges and difficulties that these walks are and how the practitioner responds
to stimuli, developing resilience in the face of challenges and unfavorable
circumstances.
Keywords:
Resilience, Adventure Sports, Overcoming
O Conceito de
Resiliência
A
noção de resiliência vem sendo usada historicamente pela Física e Engenharia.
Esse conceito apresenta a ideia de módulo de elasticidade (TAVARES, 2001, P
15). Segundo definição de Tavares (2001), resiliência refere-se à capacidade de
um material absorver energia, sem sofrer deformação permanente (EASLEY, EASLEY
& ROLFE, 1983, apud TAVARES 2001).
Nas
primeiras pesquisas aplicadas ao campo da psicologia, cientistas de várias
partes do mundo se apropriaram do tema, estudando-o a partir de diferentes
perspectivas que são, atualmente, organizadas por alguns autores, em três
correntes: a norte-americana ou anglo-saxônica, a européia e a latino-americana
(OJEDA, 2004).
Como conceito chave
para nossa argumentação, utilizaremos os estudos deTavares (2001) onde podemos
entender que:
Resiliência
é a capacidade de responder de forma mais consistente aos desafios e
dificuldades, de reagir com flexibilidade e capacidade de recuperação diante
desses desafios e circunstâncias desfavoráveis, tendo uma atitude otimista,
positiva e perseverante e mantendo um equilíbrio dinâmico durante e após os
embates – uma característica de personalidade que, ativada e desenvolvida, possibilita
ao sujeito supera-se e às pressões de seu mundo, desenvolver um autoconceito
realista, autoconfiança e um senso de autoproteção que não desconsidera a
abertura ao novo, à mudança, ao outro e à realidade subjacente. (Tavares, 2001,
p 7)
Segundo o mesmo autor,
a resiliência é um conceito novo que assume um significado especial na formação
das camadas mais jovens e nos grupos sociais de alto risco ou sujeitas a níveis
elevados de stress. (TAVARES 2001, P, 43).
As
pessoas sentem-se cada vez mais ameaçadas, por realidades externas e internas,
a sensação de insegurança aumenta e torna-se mais indefinida e, por
conseguinte, os níveis de ansiedade e angústia são cada vez mais elevados
conduzindo, em muitos casos, a verdadeiras situações de rotura e desespero. (Tavares,
2001, P 42)
Para Tavares (2001) é
no contexto acima que o conceito de resiliência deve ser questionado e deve ser
desenvolvido, porque diz que uma pessoa resiliente não é apenas aquela que
resiste de qualquer forma, mas sim aquele que resiste e mantém um padrão
positivo na resistência, ou seja, a pessoa que, passando pelas situações
difíceis, consegue transformá-las em aprendizado, adquirindo autonomia. Segundo
Ruegg resiliência deve ser vista como:
(...)
uma qualidade de resistência e perseverança da pessoa humana face às
dificuldades que encontra e mostra a evolução do conceito – das realidades
materiais, físicas e biológicas, para as realidades imateriais ou espirituais.
(Ruegg 1997, p.09 apud Tavares, 2000, p.34)
Com isso podemos
entender que a grande e fundamental diferença do conceito de resiliência quando
aplicada à Física e quando aplicada à Psicologia (ou seja, com o fator humano
envolvido) é a de que os seres humanos podem ter a capacidade de adaptar-se e
ajustar-se não de forma meramente passiva, mas na medida em que se adaptam às
pressões e dificuldades cotidianas, podem construir novas formas de relação,
mais verdadeiras, participativas, solidárias, enfim, relações com mais
qualidade.
Resiliência e Esportes de Aventura
Em nossa sociedade temos
visto o surgimento de novas formas de “estar juntos”. Dentre essas novas formas
chamamos a atenção para as atividades de aventura, cujo campo principal de
manifestação tem sido o lazer. Dentre essas formas destacamos o trekking ou
caminhada pequeno ou longo curso, a escalada esportiva, o rappel, dentre várias
outras. Ao analisar os nomes que elas têm recebido por diversos autores (novos
esportes; esportes de aventura; esportes tecnoecológicos; esportes em
liberdade; esportes californianos; esportes selvagens; entre outros) pode-se
constatar que esses rótulos definem as características e as origens dessas
práticas, inseridas em um contexto mais amplo (MARINHO 2001).
No entender de Betrán
(1995), as atividades de aventura se diferem dos esportes tradicionais porque
as condições de prática, os objetivos, a própria motivação e os meios
utilizados para o seu desenvolvimento são outros e, além disso, há também a
presença de inovadores equipamentos tecnológicos permitindo uma fluidez entre o
praticante e o espaço da prática. São atividades cerceadas por riscos e
perigos, na medida do possível, calculados, não ocorrendo treinamentos
intensivos prévios (como no caso de esportes tradicionais e de práticas
corporais como a ginástica e a musculação). A experimentação acontece de
maneira mais direta, havendo um afastamento de rendimentos planejados.
A identidade
diferenciada das atividades de aventura provém de aspectos práticos ou
materiais e, também, de sua dimensão imaginária ou simbólica (Feixa, 1995), na
qual a aventura aparece como uma cenografia e as ações são subordinadas às
percepções e riscos (reais e imaginários). Durante essas situações de aventura,
o corpo passa a ser um campo informacional, concebido como receptor e emissor
de informação e não como mero instrumento de ação ou coação. Os corpos, por sua
vez, enfrentam regras de realização constantemente revisáveis e sempre
submetidas à apreciação dos praticantes.
Segundo Pociello
(1995, p19), alguns aspectos irão reforçar o gosto pronunciado por essas
aventuras, tais como:
Flexibilidade
e rapidez de adaptação, leveza e mobilidade, pequenos grupos, domínio de
tecnologias avançadas, organização em rede, senso de iniciativa e capacidade de
assumir riscos calculados.
Um discurso “radical”
vem legitimando essas práticas, traduzindo, talvez, um pouco das complexidades
do cotidiano humano. Talvez esse discurso possa ser mais bem compreendido
mediante reflexões sobre o contemporâneo quadro em que vivemos.
De acordo com Bruhns
(1997, p 26), estamos vivendo um quadro contemporâneo complexo, composto de
perda de horizontes, vazio existencial e incômodo permanentes: sensações
presentes no cotidiano. Busca-se algo indefinido, desconhecido, compondo
instabilidades e descartabilidades. Segundo a autora, instabilidades devido a
situações diárias envolvendo riscos constantes, violências, desempregos,
endividamentos, acúmulo de informações, entre outros. E, por sua vez, as
descartabilidades envolvem desde o complexo problema do lixo até o descarte de
valores, estilos de vida, relacionamentos estáveis e diferentes tipos de apegos
a coisas, pessoas, lugares, etc.
Nas
vivências de aventura, pode-se perceber a influência mais surda, entretanto,
mais profunda de um mundo em crise, inquietante e instável, consumido por
abalos brutais e animado por transformações rápidas. (Pociello, 1995)
Por contrapartida,
essas vivências de aventura, com base em Bruhns (1999), podem se constituir em
um tipo de resistência a alguns elementos desse quadro contemporâneo acima
explicitado (instabilidades, caos, contradição), à medida que utilizam esses
mesmos elementos, e maneira lúdica, para brincar com eles.
Desenvolvimento da Resiliência em Caminhadas de Pequeno e
de Longo Curso
Chegamos ao ponto
onde podemos traçar um paralelo entre a capacidade do ser humano de desenvolver
a resiliência e o papel do educador como mediador, segundo a teoria de Vygotsky
de que:
A
rigor, do ponto de vista científico, não se pode educar a outrem [diretamente].
Não é possível exercer uma influência direta e produzir mudanças em um
organismo alheio. Só é possível educar a si mesmo, isto é, modificar as reações
inatas através da própria experiência. (Vygotsky, 2003, p. 75)
Em outro ponto,
afirma:
Por
isso, o professor desempenha um papel ativo no processo de educação: modelar,
cortar, dividir e entalhar os elementos do meio para que estes realizem o
objetivo buscado (idem, p.79).
Tendo como base essa
teoria e o que foi apresentado sobre os esportes de aventura, podemos construir
um cenário onde o educador, usando um dos esportes, a saber, a Caminhada de
Pequeno Curso e a Caminhada de Longo Curso, regulamentadas no Brasil pelas
Normas ABNT NBR 15505 e 15398,
respectivamente, conduzem o participante a uma experiência onde o mesmo pode
sair de sua Zona de Conforto e lançar-se em uma experiência que represente uma
quebra, uma mudança nos conceitos que tem de si mesmo e uma ampliação de seu
autoconhecimento.
Somos submetidos em nosso dia a dia a situações involuntárias de risco,
como os riscos naturais do relacionamento com a sociedade e com o ambiente em
que vivemos. Por outro lado, temos aqueles casos de certa forma controláveis
que permeiam nossa vida desde os primeiros anos e nos quais podemos influenciar
ativamente.
Temos a capacidade de fazer escolhas ou tomar decisões e isso pode ser
usado para moldar nosso futuro, mas a trajetória de nossa vida, marcada por
frustrações, desilusões e derrotas, pode inibir nossas atitudes e, quando
percebemos em um dado momento que alcançamos certa estabilidade, fechamos as
janelas para novas visões do mundo, para o novo.
Porém, quem não tem audácia e disciplina não pode alimentar grandes
sonhos, mas eles serão enterrados nos solos da sua timidez e nos destroços das
suas preocupações. Estará sempre em desvantagem competitiva (CURY, 2004). É
necessário estarmos prontos para correr riscos, o que muita gente não quer
porque isso implica na saída da zona de conforto. Essa zona de conforto,
prazerosa e aparentemente segura, contribui para a estagnação, impedindo o
nosso crescimento, tornando-nos vulneráveis às adversidades do dia-a-dia (BRAGA
apud LIMA, 2007).
As caminhadas de Pequeno Curso, definidas na norma ABNT NBR 15505, são
caminhadas em ambientes naturais que podem ser feitas em períodos de poucas
horas e que não envolvem pernoite, mas exigem o uso de equipamentos específicos
e capacitação de um condutor em algumas competências. As caminhadas de longo curso,
definidas na norma ABNT NBR 15398, são caminhadas em ambientes naturais
envolvendo pernoite, uso de equipamentos específicos e também a capacitação de
um condutor em algumas competências. O condutor, segundo as mesmas Normas, é o
profissional que recepciona, orienta, prepara e conduz o cliente de forma
segura nas atividades de caminhada de pequeno e de longo curso.
É nesse contexto que podemos situar o educador-condutor como um
especialista que levará o participante a romper seus limites, a sair de sua
zona de conforto e experimentar o novo.
Uma caminhada de pequeno curso em ambiente natural pode ser explorada
para conduzir crianças, jovens, adultos e idosos simulando-se várias situações,
adaptadas às faixas etárias, como a superação de obstáculos e desafios. A
Caminhada de longo curso em ambiente natural envolve planejamento de
estratégias e logística, preparação de equipamentos além da superação de
obstáculos durante a caminhada em si. É nesse cenário que o condutor leva o
participante a refletir sobre sua condição frágil diante da força da natureza,
que pode ser fatal se ambos não se submeterem à disciplina de seguirem regras
específicas de conduta em ambientes naturais. Assim, esse participante, ou
grupo de participantes, são levados a experimentar situações de stress
controlado e perceberem que possuem as ferramentas para lidar psicologicamente
com essas pressões.
O condutor-educador é nesse ambiente aquele intermediário, facilitador
que conduzirá o participante em uma jornada que confirmará que:
Ajudar as pessoas a descobrir as suas capacidades,
aceitá-las e confirmá-las positiva e incondicionalmente é, em boa medida, a
maneira de as tornar mais confiantes e resilientes para enfrentar a vida do
dia-a-dia por mais adversa e difícil que se apresente. Sabemos que o modo de
ajudar mais eficazmente as pessoas a resolver os seus problemas é ajudá-las a
afirmar, desenvolver e otimizar o seu auto-conceito, a sua auto-estima.
(Tavares, 2011, p. 52).
Considerações Finais
A resiliência é um
novo paradigma científico e de formação que está se configurando como
verdadeiro “manual de sobrevivência” para o ambiente hostil em que vivemos.
Seus conceitos foram desenvolvidos recentemente a partir de conhecimentos
empíricos bastante antigos.
Buscamos nesse texto
uma aproximação ao conceito de resiliência e sua repercussão na área
educacional, basicamente mostrando que o conceito é uma ideia que traz
dimensões relacionadas à individualidade e coletividade. Pensar em pessoas mais
resilientes, implica em supor seres humanos mais autônomos, críticos,
participativos, sensíveis e amorosos. As experiências sensíveis, por sua vez,
parecem ser difíceis de serem notadas em nosso cotidiano. Muitas oportunidades
para isso simplesmente passam despercebidas. Podemos dizer que o ambiente natural aguça nossa sensibilidade, sendo um lugar
de experimentação, onde as coisas realmente acontecem. Um lugar onde acertamos,
erramos, aprendemos, nos desenvolvemos, enfim, um lugar onde estão as
verdadeiras oportunidades que nos fazem crescer pessoalmente, onde se pode
percorrer trilhas irregulares, traçar e alcançar objetivos, superar limites
antes impossíveis aos nossos olhos, e, também, trabalhar as frustrações, os
medos e as incertezas. Há necessidade de a sensibilidade ser vivida como
um fim sem limites precisos, podendo ser observada em pequeninas e simples
atitudes do dia-a-dia. Percebê-la como um fim, pode nos fazer acreditar que ela
dará sentido maior à vida, permitindo o desenvolvimento em suas formas
cotidianas e corriqueiras. Como mostra Bruhns (1997), a vivência de novas
sensibilidades se faz necessária para que possam conduzir os seres humanos a diferentes
formas de comunicação com o meio em que vivem.
Em um ambiente
natural, no qual há maiores imprevisibilidades (como por exemplo, ocorrência de
avalanches, tempestades, frio, etc.), é possível acreditar que os adeptos das
atividades de aventura, particularmente a caminhada de longo curso, possam
assumir atitudes defensivas em suas vidas ao mesmo tempo em que procuram e
enfrentam deliberadamente o perigo.
Portanto, como já
destacado, a vivência das atividades de aventura, enquanto experiências intensas,
excedendo a rotina e diferenciando-se da vida cotidiana, pode contribuir para o
desenvolvimento da resiliência como competência humana e esta competência pode
ser aprendida a partir de como o indivíduo encara seus desafios.
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Sobre os Autores
Cristina Jasbinschek Haguenauer
Graduada
em Engenharia Civil pela UERJ (1985), Mestre em Engenharia pela PUC-RJ (1988)
e Doutora em Ciências de Engenharia UFRJ (1997). Atualmente é professora
Associada da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atua em ensino, pesquisa
e consultoria na área de Tecnologias da Informação e da Comunicação, com foco
em Educação a Distância, Capacitação Profissional, Formação Continuada,
Produção de Hipermídia, Jogos Educativos, Ambientes Virtuais de Aprendizagem,
Portais de Informação e Realidade Virtual.
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Alfredo José Rebello
Educador Ambiental e Professor de Informática Educativa. É
editor executivo do Portal e da Revista de Educação Ambiental do Laboratório
de Pesquisa em Tecnologias da Informação e Comunicação - LATEC-UFRJ. Diretor
da empresa EDUCATRILHA -
Educação Ambiental, Desenvolvimento Pessoal e Resiliência.
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