A importância da Alfabetização Ecológica nas escolas brasileiras

22 abril 2014

Entrevista com Berenice Gehlen Adams
(Publicado no Jornal do Meio Ambiente
 
Por Luciana Ribeiro
 
É com imensa honra e satisfação que convidamos a Pedagoga e Educadora Ambiental do Rio Grande do Sul para dialogarmos sobre as ações pedagógicas que permeiam o lançamento do seu livro ABC Ambiental Ilustrado: Um Mundo Encantado Chamado Terra, com atividades para alfabetização em 2013. Felizmente, compartilharmos com os leitores do Jornal, um bate-papo ecológico muito especial sobre os novos conhecimentos que recomendam a vivência da cidadania ambiental entre os gestores, os educadores e os futuros pedagogos do Brasil.
 
Para  conhecer ou pesquisar as informações voltadas para a educação ambiental que facilita e redimensiona a leitura e a escrita na escola,  acesse o site do Projeto Apoema (http://www.apoema.com.br/), que é direcionado por Berenice Gehlen Adams e embasado pela Política Nacional de Educação Ambiental, Todo esse referencial teórico é riquíssimo e bastante indicado para auxiliar a comunidade escolar (professor, diretor, aluno ). Segue a entrevista:
 
JMA: Qual sua visão referente à alfabetização que é desenvolvida nas escolas brasileiras? Relate alguma experiência que considera importante para ensinar valores que descrevem a qualidade de vida do cidadão brasileiro e do meio ambiente.
 
A visão que tenho sobre a alfabetização do Brasil não é nada otimista, Luciana, e ela vem de algumas pesquisas que fiz quando estava trabalhando no projeto do livro ABC Ambiental Ilustrado, pois evidenciaram que os processos de alfabetização, da maioria das escolas do nosso País, não têm apresentado bons resultados e estes vão refletir em diversos problemas de aprendizagem dos alunos, ao longo da sua vida escolar, como por exemplo: leitura lenta; problemas de interpretação; muitas dificuldades em escrever uma boa e simples redação; e, o pior deles, o da falta de interesse pela leitura. Quanto a relatar alguma experiência, ressalto que todas as atividades que sensibilizem as crianças sobre o meio ambiente para a importância da vida e evidenciem que há uma conexão entre tudo e todos, são fundamentais. Utilizar recursos didáticos como livros e outros que envolvam os sentidos para aguçar a percepção ambiental, também é muito importante, como áudios, vídeos, fotografias, ilustrações. A exploração de diferentes espaços como parques, praças, museus, espaços públicos e ambientes ao ar livre – desde que sejam seguros – é fundamental para o envolvimento das crianças com essa ciranda que se chama VIDA.
 
JMA: Como pedagoga experiente e apaixonada pela preservação do meio ambiente, o que de fato  motivou a produção do livro ABC Ambiental Ilustrado: Um Mundo Encantado Chamado Terra com atividades para alfabetização no ano de 2013? De que forma ele instrumentaliza ou apóia educadores do Rio Grande do Sul e das demais cidades brasileiras? 
 
Eu sempre tive um imenso desejo de produzir um livro didático para as crianças que estão ingressando no mundo da leitura e da escrita, e que pudesse aliar o processo de alfabetização propriamente dito, ao desenvolvimento de uma consciência crítica em relação ao meio ambiente. Eu sou muito a favor de livros textos para a alfabetização, que são também chamados de “cartilhas”, pois eles podem funcionar como passaportes para o mundo da leitura, mas infelizmente, não temos boas produções à nossa disposição por disponibilizarem textos que privilegiam os fonemas, as letras, e muitas vezes não têm sentido algum para a criança. A maioria deixa a desejar em se tratando de conteúdo. O ABC Ambiental Ilustrado é um livro que traz para cada letra um poema, e apresenta ilustrações e fotos com conceitos que podem ser explorados pelos professores, no processo de alfabetização. Ele pode ser pintado, recortado, desenhado, escrito, lido, enfim, pertencerá à criança, e ela poderá apropriar-se dele. Nesta fase as crianças aprendem muito mais com o concreto, com o que podem manipular, por isto entendo que o livro, nesta fase, é fundamental. Em relação ao seu conteúdo, há a preocupação de apresentar palavras que evocam o nosso sistema de vida e tudo o que ele envolve. Caberá a cada docente ampliar estes conceitos, inserindo-os no universo de seus alunos, abordando a interdisciplinaridade que estiver nele implícita.  Uma cartilha ou um livro texto que não seja extrapolado pelos professores em suas atividades, nunca trará bons resultados, por si só. Como o ABC Ambiental Ilustrado foi lançado no final de 2013, não há, ainda, experiência concreta a se relatar. Há um projeto piloto da sua aplicação em andamento para o ano letivo de 2014 em parceria com uma cidade de Minas Gerais, então, os resultados poderão ser colhidos, apenas, no final desta aplicação. Estou muito confiante de que se trata de um recurso pedagógico que pode enriquecer no processo de alfabetização, bem como na inserção da Educação Ambiental à rotina escolar da educação básica salientando que pode ser utilizado em qualquer localidade do País.
 
JMA: A organização do livro contou com sua vivência de educadora por meio de fotos, desenhos e outros detalhes que dignificam seu amor pela natureza. O professor precisa vivenciar a educação ambiental antes de apregoá-la para seus alunos?
 
A Educação Ambiental é uma prática em que a maioria dos professores já está engajada, quer seja por determinação das escolas, ou como iniciativa do professor por exercício de sua cidadania planetária. O docente, necessariamente, deve acompanhar o que acontece no mundo para abordar em suas aulas, e o mundo está mostrando que precisamos dar maior ênfase a atitudes que minimizem os danos ao meio ambiente, então, este recurso pedagógico pode ser um grande aliado, principalmente se o professor não tiver familiaridade com a Educação Ambiental em seu contexto teórico (muitos docentes utilizam especificamente e de forma estanque as datas comemorativas e temas fechados como lixo, poluição, reciclagem, raramente enfocando a beleza da vida,de sua plenitude, evidenciadas nas suas infindáveis lições, trabalhando o meio ambiente e seus “problemas” ao invés de abordar o meio ambiente e a vida que ele abriga.). Para estes professores, o livro poderá ser um incentivo para que ele se engaje a esta prática, que nada mais é do que trazer a vida em seu amplo contexto para dentro das atividades escolares. 
 
JMA: De acordo com suas experiências pedagógicas, como o professor pode articular conhecimentos práticos referentes aos temas complexos, como o aquecimento global, a reciclagem do lixo, a poluição dos mares etc? Nesse sentido, poderia indicar duas sugestões de atividades que considera primordiais para fundamentar a alfabetização ecológica no contexto escolar?
 
Luciana, eu procuro enfatizar que a Educação Ambiental mais profunda é aquela que promove um trabalhado educativo sob o prisma de como a vida funciona, as relações existentes entre diferentes ecossistemas, envolvendo todas as disciplinas, associando os conteúdos curriculares possíveis – uma vez que estes devem ser atendidos -. Esta Educação Ambiental desperta o interesse das crianças de forma que elas se sintam alegres e envolvidas em descobertas, caso contrário, sem este envolvimento, a criança fica assustada com abordagens como: “Precisamos salvar o Planeta”, ou que “O Meio ambiente está sofrendo”. Elas ainda não têm a capacidade de alcançar a compreensão de futuro, e por isto se sentem impotentes diante tantos problemas que nem foram elas quem criaram. Por este motivo, sugiro que a Educação Ambiental seja abordada por um foco mais abrangente de meio ambiente, uma vez que, normalmente, partimos de algum “problema” para praticar a Educação Ambiental. Porém, isso não impede que estes temas que você levantou, Luciana, sejam trabalhados, mas devem estar dentro de um contexto que seja significativo para as crianças. Para abordar o tema “aquecimento global”, uma sugestão é fazer uma visita a alguma estufa de mudas, podendo ser em floriculturas ou viveiros florestais, e mostrar como funciona esta estufa (Em não podendo sair com as crianças, pode-se utilizar um livro que trate do assunto, ou um vídeo). A partir deste aprendizado, o professor cria atividades que possibilitem uma associação ao efeito estufa natural da Terra, para que as crianças percebam que sem ele seria tão quente que não haveria vida no Planeta, assim como algumas plantas precisam da estufa para germinar e crescer. Depois de compreendido, aí se chega ao assunto aquecimento global, para a compreensão de que o calor nesta estufa natural da Terra se acentua pelo excesso de fumaça que é liberada no ar (explorar diferentes tipos de fumaça, bem como as atividades que geram fumaça). Enquanto o professor perceber que há interesse no assunto, explora-o até o esgotamento ou até que perceba outro tema que possa dar continuidade. Em relação à sugestão para um trabalho focado em reciclagem, será muito apropriado partir de algo concreto, que evidencie o sistema de reciclagem natural que existe na terra, pela decomposição de material orgânico, podendo ser visto em composteiras, que podem ser feitas na própria escola. Fazer um minhocário, também é bem simples e mostra como as minhocas transformam o lixo orgânico em húmus. A partir disto, podem-se explorar muitas atividades interdisciplinares enfocando os resíduos que geramos e o tempo que demoram em se decompor, desde atividades artísticas, até brincadeiras com a sucata, criação de histórias, entrevistas, visitas a feiras, etc, lembrando que, ao tratar o tema reciclagem deve ser tratado, também, o tema redução de consumo.
 
JMA: Fale sobre  a importância da arte ambiental, que pode ser articulada por meio de teatros, músicas,vídeos,confecção de recicláveis, os quais ajudam o professor a reeducar seus alunos para a preservação da natureza. Você acha que as indústrias podem fabricar brinquedos ecológicos e, desse modo, ajudar os educadores a desenvolverem essa missão educacional?
 
A arte, de todos os tipos, é uma das mais belas maneiras que se pode fazer a Educação Ambiental de forma interdisciplinar. A sucata é uma importante matéria prima, porém, é preciso salientar que estes materiais devem ser previamente solicitados, dando um prazo para a sua coleta de resíduos limpos que a família da criança costuma produzir durante uma semana, por exemplo. Nunca solicitar que as crianças tragam materiais específicos como: 3embalagens de garrafas PET, 2 embalagens de copos de Iogurte, 1 embalagem de pote de sorvete, etc, pois muitas famílias que não fazem uso de certos produtos passarão a consumi-los porque é preciso mandar para a escola do filho – aí está havendo um incentivo ao consumo, e o que é pior, de maneira forçada. Há muitos relatos de pessoas que passaram a comprar um determinado produto, pois alguém o recicla muito bem, ou precisam levar para um curso ou para a escola. Se gerarmos uma dependência destes recursos, geramos outro problema, ao invés de minimizá-lo. Mas, a reciclagem deve sim, ser incentivada como recurso pedagógico de fácil acesso. Tem muito material educativo encontrado no lixo, e isto são poucos os que compreendem. Há muitas pessoas que são completamente contra a utilização da sucata, mas pelos motivos que citei, e com razão. Sobre a produção de brinquedos ecológicos, estes, sem dúvida, são muito bem-vindos para apoiar a Educação Ambiental! 
 
JMA: O órgão gestor de educação ambiental (Ministério do Meio Ambiente e  Mistério da Educação) no Brasil pode e deve ajudar os educadores a resolverem os problemas ambientais. Poderia citar algum referencial educativo (livro, vídeo, projeto) indicado por eles, os quais auxiliam o trabalho de alfabetização realizado no contexto escolar?
 
Há muito tempo eu acompanhava bem de perto as atividades do MMA, Luciana, e nesse tempo percebia um grande esforço, principalmente na época da Ministra Marina Silva, o MA e a EA no Brasil tinham mais destaque. Foi um tempo em que muitos ideais da Educação Ambiental tomaram corpo nas ações de educação. Houve uma explosão de Redes de EA por todo o Brasil, graças a REBEA (Rede Brasileira de Educação Ambiental). Foi quando nasceram muitos projetos como as Salas Verdes, os Coletivos Educadores, e produziam materiais informativos, publicações, entre outros, mas há muito tempo que não acompanho mais o Órgão Gestor do MMA, por não ter nenhum envolvimento, atualmente. Além disto, ao final de 2012 o Projeto Apoema – EA deixou de ser ONG e passou a ser programa socioambiental da empresa Apoema Cultura Ambiental, justamente por falta de possibilidades reais de parcerias com o Governo, por falta de incentivo e pela burocracia desgastante dos processos para apoios a projetos. 
 
JMA: O desafio de implementar as políticas públicas voltadas para a sustentabilidade nos currículos escolares é algo fundamental para melhorar a qualidade do ensino no Brasil. Segundo as pesquisas acadêmicas (Berenice Adams/Vilmar Berna/Moacir Gadotti), as crianças e os adultos compreendem melhor os valores essenciais para a convivência social no planeta Terra, tais como respeitar a diversidade cultural e  zelar pelo local de moradia. O que falta de fato para que os governantes, os educadores, as famílias brasileiras dialoguem sobre a cidadania ambiental no contexto escolar?
 
Esta sua pergunta, Luciana, dá um bom tema para uma tese, e por isso, respondê-la é um desafio. O que falta, principalmente no nosso Governo é: coerência; respeito, conhecimento, atitude, seriedade, boa vontade e principalmente, o exercício da cidadania planetária. De um lado, nossa legislação ambiental brasileira é a mais completa do mundo, de outro, o nosso Governo permite verdadeiras atrocidades, como por exemplo, a transposição do Rio São Francisco, a construção de grandes usinas hidrelétricas, o desrespeito com os povos indígenas, e por aí vai. Assim, ocorrem inúmeros retrocessos, em prol de grandes corporações que lucram com a devastação. Para mim, este é o ponto crucial que justifica a falta de um diálogo sobre cidadania ambiental no contexto escolar, é um reflexo dessa irresponsabilidade ambiental governamental.
 
JMA: Fale sobre a revista eletrônica Educação Ambiental em Ação (http://www.revistaea.org/) que você articula com amigos, colaboradores, parceiros e ambientalistas renomados para ajudar a disseminar a educação ambiental no Brasil. Fale sobre essa “alfabetização de idéias e projetos ecológicos” que beneficiam aqueles que  não sabem zelar pelo meio ambiente. Os universitários podem mobilizar algum trabalho acadêmico por meio dela? Como?
 
A revista eletrônica Educação Ambiental em Ação é uma produção virtual, e é fruto de um desejo de educadores ambientais e produtores culturais de diferentes áreas de atuação, de diversas partes do País, - sendo uma das participantes da Argentina -, todos integrantes do GEAI (Grupo de Educação Ambiental da Internet), que se articula como rede, fundado em 2000. A cada dia aumenta de forma muito significativa a participação de acadêmicos e universitários que enviam suas experiências, ações, pesquisas em seus artigos, que são avaliados e, se aprovados e estando de acordo com as normas da revista - que estão disponíveis no site - são publicados. A revista conta, ainda, com diversas seções como: Dinâmicas, Textos de reflexão, Educação, Sugestões Bibliográficas, Arte e Ambiente, Práticas de Educação Ambiental, Entrevistas, entre outras. Normalmente elaboramos um cronograma anual definindo o tema de cada edição, elegendo uma frase que será o “norte” dos nossos trabalhos. Acredita-se que a produção é uma grande contribuição para todos que queiram aprimorar suas práticas relacionadas à Educação Ambiental. Sua periodicidade é trimestral e desde 2001, quando foi lançada, já tivemos mais de 4 milhões de acessos, um número muito significativo para uma produção que não faz uso de publicidade, evidenciando a grande procura pelo assunto Educação Ambiental.
 
JMA: O ensino da educação ambiental pode e deve ser articulado nos cursos de Pedagogia, mas, infelizmente, esse processo de reeducação é algo difícil, burocrático e desafiador para as universidades e faculdades brasileiras pela falta de apoio pedagógico para implementar atividades práticas, como organizar uma horta escolar, por exemplo. Poderia socializar alguns conselhos ambientais concernentes à aplicação de conhecimentos práticos para os futuros pedagogos do Brasil?
 
 
A falta da Educação Ambiental nos cursos de formação de professores, de Pedagogia, - e de outros cursos de outras áreas do conhecimento - evidencia mais uma contradição das nossas políticas públicas, sendo que a Lei Nº 9.795, que institui o Programa Nacional de Educação Ambiental, abarca os seguintes artigos que se relacionam ao seu questionamento:
 
Art. 10  A educação ambiental será desenvolvida como uma prática educativa integrada, contínua e permanente em todos os níveis e modalidades do ensino formal. 
 
§ 1o A educação ambiental não deve ser implantada como disciplina específica no currículo de ensino. 
 
§ 2o Nos cursos de pós-graduação, extensão e nas áreas voltadas ao aspecto metodológico da educação ambiental, quando se fizer necessário, é facultada a criação de disciplina específica. 
 
§ 3o Nos cursos de formação e especialização técnico-profissional, em todos os níveis, deve ser incorporado conteúdo que trate da ética ambiental das atividades profissionais a serem desenvolvidas. 
 
Art. 11 A dimensão ambiental deve constar dos currículos de formação de professores, em todos os níveis e em todas as disciplinas. 
Parágrafo único. Os professores em atividade devem receber formação complementar em suas áreas de atuação, com o propósito de atender adequadamente ao cumprimento dos princípios e objetivos da Política Nacional de Educação Ambiental. 
 
Art. 12  A autorização e supervisão do funcionamento de instituições de ensino e de seus cursos, nas redes pública e privada, observarão o cumprimento do disposto nos arts. 10 e 11 desta Lei.
 
Na prática, infelizmente, isto não acontece, evidenciando descaso e irresponsabilidade no descumprimento desta Lei, criada já em abril de 1999, e, ainda hoje, a maioria dos professores e dos espaços de educação desconhecem a sua existência.
 
Concluo a minha resposta, então, Luciana, com alguns conselhos a quem está fazendo Pedagogia: 
 
- Conheça os documentos referência da Educação Ambiental, facilmente encontrados na Internet: A Lei 9795; Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e  Responsabilidade Global; e, a Carta da Terra (existem muitos outros, mas estes eu considero como principais);
 
- Leia artigos pedagógicos que tratam de experiências de Educação Ambiental relacionadas ao que é do seu interesse. Se trabalha com corpo docente e equipe diretiva, busque por experiências que promovam a capacitação em Educação Ambiental e sensibilização de docentes e da equipe; se trabalha com crianças, inteire-se de práticas, dinâmicas, e atividades relacionadas; se trabalha em empresa, busque conhecer como a Educação Ambiental é trabalhada nestes ambientes empresariais.
 
- Elabore um projeto de Educação Ambiental e busque meios de aplica-lo no seu ambiente acadêmico.
 
A partir daí, o caminho estará aberto para muitas descobertas que implicarão em uma melhor visão da Educação Ambiental e da sua relação direta com o ser pedagógico de cada um.
 
JMA: O Projeto Apoema  oferece cursos ou palestras direcionadas  aos educadores brasileiros. Quais são eles e como acessá-los para que  gestores e  professores adquiram conhecimentos para enriquecer a prática da educação ambiental dentro e fora do contexto escolar?
 
Por algum tempo o Projeto Apoema desenvolveu três cursos de Educação Ambiental à distância, através da Apoema Cultura Ambiental, que é a empresa pela qual presto estes serviços e publico os livros de Educação Ambiental. Como os recursos tecnológicos dão saltos grandes em curtos espaços de tempo, resolvemos dar uma reelaborada no ambiente virtual e em breve pretendemos retomá-los. Em relação a palestras, atualmente venho desenvolvendo o tema: Cultivando um jardim de atitudes sustentáveis e pode ser abordado tanto com professores como com crianças a partir dos 10 anos. Além disso, faço oficinas com professores que tratam dos documentos referência da Educação Ambiental. Muitas instituições me procuram para elaborar projetos (tanto escolas como empresas) muitas vezes já com um tema específico, para o qual preparo a palestra ou a oficina em forma de “encomenda”. 
 
JMA: Fale sobre o consumo infantil no Brasil e as ações que envolvem a alfabetização ecológica para sanar a crise ambiental que tende a agravar-se no mundo inteiro.
 
Este é um tema, Luciana, que tem grande importância dentro do contexto da Educação Ambiental porque ele precisa extrapolar o ambiente escolar para chegar nos lares, nos pais, nos avós, na comunidade, pois as crianças só consomem o que os adultos adquirem para ela. A escola poderá, através de eventos, de informativos, de atividades desafiadoras, levar a comunidade a perceber que consomem muito mais do que necessitam, conscientizando-os para o consumo sustentável. Outro ponto desta questão do consumo infantil é o da própria escola incentivar o consumo através da sua cantina, disponibilizando produtos alimentícios de baixa qualidade. 
 
JMA: Deixe um recado eco especial para os leitores do Jornal Meio Ambiente e seus contatos para serem divulgados para os educadores brasileiros.
 
A Educação Ambiental é um processo apaixonante e transformador, e não se trata, de forma alguma, de se incluir mais conteúdos ao currículo escolar ou torná-la uma disciplina, mas sim, ela nos propõe a evocar um novo olhar no nosso fazer educacional, que inclui o ambiente em sua totalidade, às práticas rotineiras. Sou míope, e lembro-me perfeitamente do dia em que saí da ótica com meus óculos novos. Na época eu tinha treze anos. Fiquei maravilhada com tudo o que via... Eu podia ver cada folha das árvores, podia distinguir o tipo de pássaro que voava, podia ver o rosto bem definido das pessoas, quando antes tudo era nebuloso. É mais ou menos isto o que se sente em relação à educação, quando colocamos as lentes da Educação Ambiental, é quase um encantamento. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
ABC Ambiental Ilustrado: Um Mundo Encantado Chamado Terra, com atividades para alfabetização
 
Autora: Berenice Gehlen Adams
Ilustrações: Ana Claudia Rocha e Berenice Gehlen Adams
Páginas: 120
Formato: A5 / papel reciclado(meio ofício)
Preço: R$62,00
 
No livro “ABC AMBIENTAL ILUSTRADO: UM MUNDO ENCANTADO CHAMADO TERRA, com atividades para alfabetização”, para cada letra há um poema acompanhado de diversas atividades ilustrativas, que combinam aprendizado com descobertas a partir de pinturas de desenhos, letras, escrita de palavras e muita observação com fotografias exclusivas, todas relacionadas com vivências e experiências da autora.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 
Saiba mais: http://www.apoema.com.br/new/
 
Obrigada pela colaboração educadora e parabéns pela realização dos trabalhos pedagógicos que enobrecem o meio ambiente!
 
A equipe do Jornal Meio Ambiente
 
Deseja muito sucesso!

Cuidado com os burros motivados

06 janeiro 2014
A revista Isto é publicou esta entrevista por Camilo Vanucci, gostei e resolvi compartilhar.

O entrevistado é Roberto Shinyashiki, médico psiquiatra, com Pós-Graduação em administração de empresas pela USP, consultor organizacional e conferencista de renome nacional e internacional.

Em “Heróis de Verdade”, o escritor combate a supervalorização das Aparências, diz que falta ao Brasil competência, e não auto-estima.

ISTOÉ – QUEM SÃO OS HERÓIS DE VERDADE?

Roberto Shinyashiki — Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoa de sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro importado, viajar de primeira classe.

O mundo define que poucas pessoas deram certo. Isso é uma loucura.
Para cada diretor de empresa, há milhares de funcionários que não chegaram a ser gerentes.

E essas pessoas são tratadas como uma multidão de fracassados.
Quando olha para a própria vida, a maioria se convence de que não valeu a pena porque não conseguiu ter o carro nem a casa maravilhosa.

Para mim, é importante que o filho da moça que trabalha na minha casa possa se orgulhar da mãe. O mundo precisa de pessoas mais simples e transparentes.

Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar os outros.

São pessoas que sabem pedir desculpas e admitir que erraram.

ISTOÉ — O SR. CITARIA EXEMPLOS?

Shinyashiki — Quando eu nasci, minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão aos sete anos,empregado em uma farmácia .

Morávamos em um bairro miserável em São Vicente (SP) chamado Vila Margarida. Eles são meus heróis.

Conseguiram criar seus quatro filhos, que hoje estão bem.

Acho lindo quando o Cafu põe uma camisa em que está escrito “100% Jardim Irene”.

É pena que a maior parte das pessoas esconda suas raízes.

O resultado é um mundo vítima da depressão, doença que acomete hoje 10% da população americana.

Em países como Japão, Suécia e Noruega, há mais suicídio do que homicídio. Por que tanta gente se mata?

Parte da culpa está na depressão das aparências, que acomete a mulher que, embora não ame mais o marido, mantém o casamento, ou o homem que passa décadas em um emprego que não o faz se sentir realizado, mas o faz se sentir seguro.

ISTOÉ — Qual o resultado disso?

Shinyashiki — Paranóia e depressão cada vez mais precoces.

O pai quer preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês, informática e mandarim.
Aos nove ou dez anos a depressão aparece.

A única coisa que prepara uma criança para o futuro é ela poder ser criança.
Com a desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos dos pais estão roubando a infância dos filhos.
Essas crianças serão adultos inseguros e terão discursos hipócritas.
Aliás, a hipocrisia já predomina no mundo corporativo.

ISTOÉ – Por quê?

Shinyashiki — O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo de recrutamento.

É contratado o sujeito com mais marketing pessoal.

As corporações valorizam mais a auto-estima do que a competência.
Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras.

Disse que ela não parecia demonstrar interesse. Ela me respondeu estar muito interessada, mas, como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho dela, e não a conversa.

Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade, e não de relações públicas. Contratei-a na hora.
Num processo clássico de seleção, ela não passaria da primeira etapa.

ISTOÉ — Há um script estabelecido?

Shinyashiki — Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um Presidente de multinacional no programa O aprendiz ?
“Qual é seu defeito?”

Todos respondem que o defeito é não pensar na vida pessoal:
“Eu mergulho de cabeça na empresa.
Preciso aprender a relaxar”.
É exatamente o que o Chefe quer escutar.

Por que você acha que nunca alguém respondeu ser desorganizado ou esquecido?

É contratado quem é bom em conversar, em fingir. Da mesma forma, na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder.
O vice-presidente de uma as maiores empresas do planeta me disse:

” Sabe, Roberto, ninguém chega à vice-presidência sem mentir”.
Isso significa que quem fala a verdade não chega a diretor?

ISTOÉ — Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas?

Shinyashiki — Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento.

Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência.

CUIDADO COM OS BURROS MOTIVADOS.

Há muita gente motivada fazendo besteira.

Não adianta você assumir uma função para a qual não está preparado.
Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão.

Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso para o qual eu não estava preparado.

Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia.

O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.

ISTOÉ — Está sobrando auto-estima?

Shinyashiki — Falta às pessoas a verdadeira auto-estima.
Se eu preciso que os outros digam que sou o melhor, minha auto-estima está baixa.

Antes, o ter conseguia substituir o ser.
O cara mal-educado dava uma gorjeta alta para conquistar o respeito do garçom.

Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer.

As pessoas parecem que sabem, parece que fazem, parece que acreditam.

E poucos são humildes para confessar que não sabem.

Há muitas mulheres solitárias no Brasil que preferem dizer que é melhor assim.
Embora a auto-estima esteja baixa, fazem pose de que está tudo bem.

ISTOÉ — Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos perfeitos em tudo e de valorizar a aparência?

Shinyashiki — Isso vem do vazio que sentimos. A gente continua valorizando os heróis.

Quem vai salvar o Brasil? O Lula.
Quem vai salvar o time? O técnico.
Quem vai salvar meu casamento? O terapeuta.

O problema é que eles não vão salvar nada! Tive um professor de filosofia que dizia:

“Quando você quiser entender a essência do ser
humano, imagine a rainha Elizabeth com uma crise de diarréia durante um jantar no Palácio de Buckingham”.
Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também tem diarréia.
Ela certamente já teve dor de dente, já chorou de tristeza, já fez coisas que não deram certo.

A gente tem de parar de procurar super-heróis. Porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo o considera um fracassado.

ISTOÉ — O conceito muda quando a expectativa não se comprova?

Shinyashiki — Exatamente.
A gente não é super-herói nem superfracassado. A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza. Não há nada de errado nisso.

Hoje, as pessoas estão questionando o Lula em parte porque acreditavam que ele fosse mudar
suas vidas e se decepcionaram.

A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade pela própria vida é delas.

ISTOÉ — Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?

Shinyashiki — Tenho minhas angústias e inseguranças.
Mas aceitá-las faz minha vida fluir facilmente.
Há várias coisas que eu queria e não consegui.
Jogar na Seleção Brasileira, tocar nos Beatles (risos).

Meu filho mais velho nasceu com uma doença cerebral e hoje tem 25 anos.
Com uma criança especial, eu aprendi que ou eu a amo do jeito que ela é ou vou massacrá-la o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse.
Quando olho para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo.

O resto foram apostas e erros.
Dia desses apostei na edição de um livro que não deu certo.

Um amigão me perguntou:
” Quem decidiu publicar esse livro?”
Eu respondi que tinha sido eu. O erro foi meu.
Não preciso mentir.

ISTOÉ – Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência?

Shinyashiki — O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas cederem a essa tirania e tentar evitá-las.

São três fraquezas.

A primeira é precisar de aplauso, a segunda é precisar se sentir amada e a terceira é buscar segurança.

Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram.
Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo do aluno.

Elas ensinam a tocar como o Steve Vai, o B. B. King ou o Keith Richards.
Os MBAs têm o mesmo problema: ensinam os alunos a serem covers do Bill Gates.

O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades.

ISTOÉ — Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?

Shinyashiki — A sociedade quer definir o que é certo.

São quatro loucuras da sociedade.
A primeira é instituir que todos têm de ter
sucesso, como se ele não tivesse significados individuais.

A segunda loucura é: Você tem de estar feliz todos os dias.

A terceira é: Você tem que comprar tudo o que puder.

O resultado é esse consumismo absurdo.

Por fim, a quarta loucura:
Você tem de fazer as coisas do jeito certo.

Jeito certo não existe!

Não há um caminho único para se fazer as coisas. As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade.

Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito.

Tem gente que diz que não será feliz enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento.

Você pode ser feliz tomando sorvete, ficando em casa com a família ou com amigos verdadeiros, levando os filhos para brincar ou indo a praia ou ao cinema.

Quando era recém-formado em São Paulo,
trabalhei em um hospital de pacientes terminais. Todos os dias morriam nove ou dez pacientes.

Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte.
A maior parte pega o médico pela camisa e diz:

“Doutor, não me deixe morrer.
Eu me sacrifiquei a vida inteira, agora eu quero aproveitá-la e ser feliz”.
Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada.

Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas.

Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis ou ações, mas sim de ter esperado muito tempo ou perdido várias oportunidades para aproveitar a vida .

Fonte: Revista Isto É

Há de se cuidar da amizade e do amor

30 dezembro 2013
Por Leonardo Boff

A amizade e o amor constituem as relações maiores e mais realizadores que o ser humano, homem e mulher, pode experimentar e desfrutar. Mesmo o místico mais ardente só consegue uma fusão com a divindade através do caminho do amor. No dizer de São João da Cruz, trata-se da experiência da “a amada (a alma) no Amado transformada”. Há vasta literatura sobre estas duas experiências de base. Aqui restringimo-nos ao mínimo. A amizade é aquela relação que nasce de uma ignota afinidade, de uma simpatia de todo inexplicável, de uma proximidade afetuosa para com a outra pessoa. Entre os amigos e amigas se cria uma como que comunidade de destino. A amizade vive do desinteresse, da confiança e da lealdade. A amizade possui raízes tão profundas que, mesmo passados muitos anos, ao reencontrarem-se os amigos e amigas, os tempos se anulam e se reatam os laços e até se recordam da última conversa havida há muito tempo.
Cuidar da amizade é preocupar-se com a vida, as penas e as alegrias do amigo e da amiga. É oferecer-lhe um ombro quando a vulnerabilidade o visita e o desconsolo lhe oculta as estrelas-guias. É no sofrimento e no fracasso existencial, profissional ou amoroso que se comprovam os verdadeiros amigos e amigas. Eles são como uma torre fortíssima que defende o frágil castelo de nossas vidas peregrinas.
A relação mais profunda é a experiência do amor. Ela traz as mais felizes realizações ou as mais dolorosas frustrações. Nada é mais misterioso do que o amor. Ele vive do encontro entre duas pessoas que um dia cruzarem seus caminhos, se descobriram no olhar e na presença e viram nascer um sentimento de enamoramento, de atração, de vontade de estar junto até resolverem fundir as vidas, unir os destinos, compartir as fragilidades e as benquerenças da vida. Nada é comparável à felicidade de amar e de ser amado.  E nada há de mais desolador, nas palavras do poeta Ferreira Gullar, do que não poder dar amor a quem se ama.
Todos esses valores, por serem os mais preciosos, são também os mais frágeis porque mais expostos às contradições da humana existência.
Cada qual é portador de luz e de sombras, de histórias familiares e pessoais diferentes, cujas raízes alcançam arquétipos ancestrais, marcados por experiências bem sucedidas ou trágicas que deixaram marcas na memória genética de cada um.
O amor é uma arte combinatória de todos estes fatores, feita com sutileza que demanda capacidade de compreensão, de renúncia, de paciência e de perdão e, ao mesmo tempo, comporta o desfrute comum do encontro amoroso, da intimidade sexual, da entrega confiante de um ao outro. A experiência do amor serviu de base para entendermos a natureza de Deus: Ele é amor essencial e incondicional.
Mas o amor sozinho não basta. Por isso São Paulo em seu famoso hino ao amor, elenca os acólitos do amor sem os quais ele não consegue subsistir e irradiar. O amor tem que ser paciente, benigno, não ser ciumento, nem gabar-se, nem ensoberbecer-se, não procurar seus interesses, não se ressentir do mal…o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta…o amor nunca se acaba (1Cor 13, 4-7). Cuidar destes acompanhates do amor é fornecer o húmus necessário para que o amor seja sempre vivo e não morra pela indiferença. O que se opõe ao amor não é o ódio mas a indiferença.
Quanto mais alguém é capaz de uma entrega total, maior e mais forte é o amor. Tal entrega supõe extrema coragem, uma experiência de morte pois não retém nada para si e mergulha totalmente no outro. O homem possui especial dificuldade para esta atitude extrema, talvez pela herança de machismo, patriarcalismo e racionalismo de séculos que carrega dentro de si e que lhe limita a capacidade desta confiança extrema.
A mulher é mais radical: vai até o extremo da entrega no amor, sem resto e sem retenção. Por isso seu amor é mais pleno e realizador e, quando se frustra, a vida revela contornos de tragédia e de um vazio abissal.
O segredo maior para cuidar do amor reside no singelo cuidado da ternura.  A ternura vive de gentileza, de pequenos gestos que revelam o carinho, de sacramentos tangíveis, como recolher uma concha na praia e levá-la à pessoa amada e dizer-lhe que, naquele momento, pensou carinhosamente nela.
Tais “banalidades” tem um peso maior que a mais preciosa joia. Assim como uma estrela não brilha sem uma atmosfera ao seu redor, da mesma forma, o amor não vive sem um aura de enternecimento, de afeto e de cuidado.
Amor e cuidado formam um casal inseparável. Se houver um divórcio entre eles, ou um ou outro morre de solidão. O amor e o cuidado constituem uma arte. Tudo o que cuidamos também amamos. E tudo o que amamos também cuidamos.
Tudo o que vive tem que ser alimentado e sustentado. O mesmo vale para o amor e para o cuidado. O amor e o cuidado se alimentam da afetuosa preocupação de um para com o outro. A dor e a alegria de um é a alegria e a dor do outro.
Para fortalecer a fragilidade natural do amor precisamos de Alguém maior, suave e amoroso, a quem sempre podemos invocar. Daí a importância dos que se amam, de reservarem algum tempo de abertura e de comunhão com esse Maior, cuja natureza é de amor, aquele amor, que segundo Dante Alighieri da Divina Comédia “move o céu e as outras estrelas” e nós acrescentamos: que comove os nossos corações.
Leonardo Boff é autor de O Cuidado necessário, Vozes 2012.

A História da Água Engarrafada

07 novembro 2013
Annie Leonard, a produtora de A História das Coisas e A História do Cap and Trade, lançou no Dia Mundial da Água o seu novo documentário: The Story of Bottled Water (ou, em tradução livre, A História da Água Engarrafada).
O vídeo, com duração de oito minutos, questiona a falta de consciência ecológica dos cidadãos que compram garrafas de água enquanto poderiam beber água tratada. Annie também apresenta o dano que essa prática causa ao planeta, como o aumento da poluição e o mal uso de dinheiro.


Os argumentos do documentário estão baseados em:
   - pesquisas científicas comprovam que água em garrafa muitas vezes tem menor qualidade do que a filtrada;
   - testes de opinião pública mostram a água tratada como de "gosto mais puro" que a mineral;
   - a água armazenada em garrafas plásticas pode custar até 2 mil vezes mais que a tratada.
O vídeo mostra que tudo isso só acontece porque as empresas que "fabricam" a água engarrafada precisam continuar crescendo, então eles investem em propagandas que moldem a atitude das pessoas em relação ao consumo de água. Por consequência, fazem uma imagem negativa da água filtrada.
"Elas dizem que a água tratada não é pura, seduzem o cliente com uma imagem de água de 'fonte limpa e bem cuidada' e, além disso, as águas engarrafadas são constantemente associadas a pessoas de boa condição financeira", são outros argumentos de Annie.
Outro dado alarmante é o da poluição. O "lixo" resultado da indústria de garrafas de plástico é grande suficiente para dar cinco voltas redor do mundo. A indústria da água polui tanto quanto qualquer outra - gasta energia, transporte e ainda produz lixo que nem sempre é reciclado. Annie completa que, geralmente, as garrafas plásticas vão para lixões ou são enceneradas, muito raro, são recicladas.
Como solução para o problema, o vídeo estimula os cidadãos a dizerem não para a água engarrafada e a encorajarem os políticos a investirem em tratamento de água e prevenção da poluição dos rios. Ele incentiva do uso de bebedouros e o boicote às garrafas de água nas escolas, nas organizações e em toda a cidade.
Mas Annie também traz estatísticas confortantes. Ela informa uma diminuição no índice de uso de águas engarrafadas - dados comprovam que restaurantes se preocupam mais com a venda de garrafas de água e que muitos consumidores usam a garrafa apenas como refil, enchendo-as com água tratada todo o tempo, pois escolheram poupar o dinheiro da compra.
O vídeo termina com a seguinte afirmativa: "carregar uma garrafa de água é tão ruim quanto uma grávida fumar cigarro". E conclui: "Nós não vamos mais seguir as demandas do mercado, vamos escolher as nossa próprias demandas, e a nossa demanda será: água limpa e segura para todos".

Fonte: EcoDesenvolvimento

Eduardo Galeano: Para que serve a utopia

A Utopia está no horizonte. Eu sei muito bem que nunca a alcançarei. Se eu caminho dez passos, ela se distanciará dez passos. Quanto mais a procure, menos a encontrarei. Qual sua utilidade, então? A utopia serve para isso, PARA CAMINHAR!

Nenhum um ser humano vai sobrar

18 julho 2013
Poeira cinzenta
Clareira de destruição
Uma visão
Do progresso
Diante
De um impactante
Visual

Complexo
Póli poluidor
Devastador

Morte feia
De olhos
Negrume
Morte feia de óleo e
Negrume

Madeira queimada
Fogueira só de maldição
Uma visão
Do progresso
Diante
De um impactante
Visual

Sem nexo
Pó de muitas vidas
Devastador

Morte feia
De olhos
Negrume
Morte feia de óleo e
Negrume

Quero ver quando o bicho pegar
Nenhum um ser humano vai sobrar
Quero ver mas não quero estar
Porque nenhum ser humano vai sobrar

O Rochedo

Daqui
Da montanha
Vejo o Cruzeiro do Sul
Sei que posso saber
O meu norte
Você me ajuda
A compreender mais
E mais disso

De noite ou de dia
Indo embora
Ou chegando
O sol aquece meu corpo
E você o meu coração

A rocha
O granito
Do grande rochedo
Na Serra dos Órgaos
Me da segurança
De pés bem plantados
Em chão que é regado a
Sangue do trabalhador

Operário
Que sua seu salário mínimo
Em troca de paz
Uma paz
Que é inalcançada

Se escalo, caminho e descanço
Debaixo de um fino teto
Barraca guerreira
Será meu abrigo
Na rua ou no campo
Diante da estagnação

A terra foi feita do fogo
O fogo derreteu a rocha
O que antes não tinha forma
Derretido, líquido, ardente
Um inferno de fogo
A queimar no espaço
Secou
Esfriou
Apareceu a forma
De rocha
Esculpida
E admirada de dentro do humano
Beleza aliada
Ao que posso dizer
Ser
Amor

E, em São Paulo, o Facebook e o Twitter foram às ruas. Literalmente

21 junho 2013
Os atos contra o aumento nas tarifas dos ônibus trouxeram centenas de milhares às ruas. Que defendiam a ideia e discordavam da violência com a qual manifestantes e jornalistas haviam sido espancados e presos pela Polícia Militar. Uma massa heterogênea, descontente, sob um guarda-chuva de uma pauta bastante concreta e objetiva. Que  foi atendida.
A manifestação de segunda, gigantesca, acabou por mudar o perfil dos que estavam protestando em favor da tarifa. O chamado feito pela redes sociais trouxe as próprias redes sociais para a rua. Quem não percebeu que boa parte dos cartazes eram comentários de Facebook e Twitter?
Portanto, nem todos os que foram às ruas são exatamente progressistas. Aliás, o Brasil é bem conservador – da “elite branca” paulistana à chamada “nova classe média” que ascendeu socialmente tendo como referências símbolos de consumo (e a ausência deles como depressão). É uma população com 93% a favor da redução da maioridade penal. Que acha que a mulher não é dona de seu corpo. Que é contra o casamento gay. Que tem nojo dos imigrantes pobres da América do Sul. Que apoia o genocídio de jovens negros e pobres nas periferias das grandes cidades. Ou seja, não é porque centenas de milhares foram às ruas por uma pauta justa que a realidade mudou e vivemos agora em uma comunidade de Ursinhos Carinhosos.
E dentre os conservadores, temos os que radicalizam. Seja por ignorância, seja por opção.
Desde que o quinto ato contra as passagens foi anunciado, grupos conservadores se organizaram na internet para pegar carona no ato. Lá chegando, foram colocando as mangas de fora com suas pautas paralelas. Na convocação do sétimo ato, isso ficou bem evidente. Estavam aos milhares na Paulista e arredores, mas ainda minoria em comparação ao total de participantes. Mas uma ruidosa, chata e violenta minoria. Com um discurso superficial, que cola fácil, traz adeptos. Parte deles usava o verde-amarelo, lembrando os divertidos e emocionantes dias com os amigos em que se pode ver os jogos da Copa do Mundo.
Nesta quinta (20), esse grupo sentiu-se à vontade para agir em público exatamente da mesma forma que já fazia nas áreas de comentários de blogs e nas redes sociais, mas sob o anonimato. Com isso, parte desse pessoal começou um ataque verbal e físico a militantes de partidos e sindicalistas presentes no ato.
Engana-se, porém, quem diz que essa era uma massa fascista uniforme. Havia, sim, um pessoal dodói da ultradireita, que enxerga comunismo em ovo e estava babando de raiva e louco para derrubar um governo. Que tem saudades de 1964 e fotos de velhos generais de cueca na parede do quarto. Essa ultradireita se utiliza da violência física e da intimidação como instrumentos de pressão e que, por menos numerosos que sejam, causam estrago. Estão entre os mais pobres (neonazistas, supremacia branca e outras bobagens), mas também os mais ricos – com acesso a recursos midiáticos e dinheiro. A saída deles do armário e o seu ataque a manifestantes ligados a partidos foi bastante consciente
Mas um grupo, principalmente de jovens, precariamente informado, desaguou subitamente nas manifestações de rua, sem nenhuma formação política, mas com muita raiva e indignação, abraçando a bandeira das manifestações. A revolta destes contra quem portava uma bandeira não foi necessariamente contra partidos, mas a instituições tradicionais que representam autoridade como um todo. Os repórteres da TV Globo, por exemplo, não estão conseguindo nem usar o prisma com a marca da emissora na cobertura – e não é só por conta de militantes da esquerda. Alckmin e Haddad, que demoraram demais para tomar a decisão de revogar e frear o caldo que entornava, ajudaram a agravar a situação de descontentamento com a classe política. “Que se vão todos”, pensam esses jovens. “Não precisamos de partidos para resolver nossos problemas”, dizem outros, que não conhecem a história recente do Brasil. “Políticos são um câncer”, que colocam todo mundo no mesmo balaio de gatos.
Elas não entendem que a livre associação em partidos e a livre expressão são direitos humanos e que negá-los é equivalente a um policial militar dar um golpe de cassetete em um manifestante pacífico.
Conversei com muitos deles que pediam “abaixo os partidos políticos”, pauta que comecei a ouvir na segunda (17), quando aquele perfil diferente de manifestante engrossou os atos (lembrem-se, eu sou o #chatodepasseata, adoro cutucar). Perguntei o porquê dessa agressividade. Depois de cinco minutos, eles mesmos percebiam que não sabiam me responder a razão. Compravam um discurso fácil guiado pela indignação.
Dentre esses indignados que foram preparados, ao longo do tempo, pela família, pela escola, pela igreja e pela mídia para tratarem o mundo de forma conservadora, sem muita reflexão, tem gente simplesmente com muita raiva de tudo e botando isso para fora. O PSDB tem culpa nisso. O PT tem culpa nisso. Pois, a questão não é só garantir emprego e objetos de consumo. Sinto que eles querem sentir que poderão ser protagonistas de seu país e de suas vidas. E vêm as classe política e as instituições que aí estão como os problemas disso.
Aí reside um problema. Porque não se joga a criança fora porque a água do banho está suja. E não se expulsa políticos ou partidos do processo democrático por vias autoritárias – por mais que o sangue suba à cabeça.
Os mais jovens não conhecem o valor das lutas que trouxeram a sociedade até aqui – e não fizemos questão de mostrar isso a eles. Muito menos que os mais velhos foram protagonistas dessas lutas. Eles não precisam ser mitificados (não gosto de heróis), mas também não podem ser desprezados. Pois, se daqui em diante, caminhos podem ser pavimentados é porque alguém abriu a estrada e nos trouxe até aqui.
É claro que os grupos conservadores mais radicais estão se aproveitando desse momento e botando lenha nesse descontentamento, apontando como culpados a classe política que está no poder e suas instituições. Flertam com ações autoritárias e, é claro, adorariam desestabilizar as instituições.
Não temos uma prática de debate político público como em outros lugares. Se, de um lado, vamos ter que aprender a conviver com passeatas conservadoras sem achar que vai rolar uma nova Macha da Família com Deus pela Liberdade nos moldes daquela que nos levou à Grande Noite, de outro, os reacionários extremistas vão ter que aprender a ser portar com decência – coisa que, nas redes sociais, já provaram que são incapazes de fazer.
O desafio é que, diante de comportamentos questionáveis e pouco democráticos desses jovens conservadores, externamos o nosso desprezo e nossa raiva. Podemos ignorá-los, enquanto crescem em número. Ou podemos conquistá-los para o diálogo e não o confronto.
Até porque, precisam compreender, por exemplo, que “o povo não acordou” agora. Quem acordou foi uma parte. Outra parte nunca dormiu, afinal não tinha cama para tanto. No campo, marchas reúnem milhares de pobres entre os mais pobres, que pedem terra plantar e seus territórios ancestrais de volta – grupos que são vítimas de massacres e chacinas desde sempre. Ao mesmo tempo, feministas, negros, gays, lésbicas, sem-teto sempre denunciaram a violação de seus direitos pelos mesmos fascistas que, agora, tentam puxar a multidão para o seu lado.
Enfim, o grosso do povo mesmo vai acordar quando a maioria pobre deste país perceber que é explorada sistematicamente. Quando isso acontecer, vai ser lindo.
Muitos desses jovens estão descontentes, mas não sabem o que querem. Sabem o que não querem. Neste momento, por mais agressivos que sejam, boa parte deles está em êxtase, alucinada com a rua e com o poder que acreditam ter nas mãos. Mas ao mesmo tempo com medo. Pois cobrados de uma resposta sobre sua insatisfação, no fundo, no fundo, conseguem perceber apenas um grande vazio.
O fato é que há um déficit de democracia participativa que vai ter que ser resolvido. Só votar e esperar quatro anos não adianta mais. Uma reforma política, que inclua ferramentas de participação popular, pode ser a saída. Lembrando que aumentar a democracia participativa não é governar por plebiscito – num país como o nosso, isso significaria que os direitos das minorias seriam esmagados feito biscoito. Como deu para ver em alguns momentos, nesta quinta, na avenida Paulista.
O momento é de respirar, ter calma, dialogar. Mas não abandonar o bom debate.

A São Paulo que ainda existe desde 1979

24 fevereiro 2013


Li em algum lugar que um repórter perguntou a Che Guevara se ele tinha carro, no que o comandante respondeu: Tenho pernas!
Sou um andarilho nato, desde criança caminho muito. Sempre gostei de andar. E ando muito até os dias de hoje!
Mas não me conformo com o teclado do notebook a falhar...
Por algum motivo algumas teclas estão inutilizadas. Creio que seja por causa de algum problema de hardware. E eu tenho que usar o teclado virtual do rwindows!
Mas vou nessa, a andar por trilhas ainda não abertas (pelo menos por mim... ainda).
E lembro-me daquele pastel singular, feio pelo japonês da Kombi na feira do bairro paulistano de Santo Amaro, mais precisamente na Granja Julieta, onde os alemães tinham as melhores casas e eu, adolescente dependente, ainda estudava para não sei o quê!
Era e foi o melhor pastel que já provei até hoje! Nem os chineses da famosa pastelaria de Teresópolis fazem um pastel tão bom (e olha que os chineses dominarão o mundo!).
Ainda hoje, quando quero comer um bom pastel espero pela época em que, depois de muito trabalhar, vou a São Paulo treinar Aikido no dojo do meu Sensei, Wagner Bull, e aproveito para dar uma voltinha pelas regiões que conheci quando adolescente.
Uma dessas regiões é a Granja Julieta, antigo bairro de “gringos”, como eram chamados os estrangeiros, maioria alemães, moradores daquela região.
Não existem mais alemães na Granja Julieta! Foram todos expulsos pelos assaltantes e ladrões que invadiam suas casas, avisados pelos policiais coniventes com os bandidos, de que os proprietários tinham ido viajar!
Eu mesmo (me arrisco aqui) presenciei um X9 a conversar com Policiais Civis em 1979, dando todo o serviço de casas vagas onde seus habitantes, funcionários de multinacionais, haviam viajado em gozo de suas férias, para que pudessem fazer a limpa, à procura de dinheiro e bens materiais que seriam vendidos e revertidos em espécie!
Bons tempos aqueles, em 1979, quando servi o Exército, em plena ditadura militar, onde podia comer meu pastel tranquilo, numa cidade segura, sem corrupção nem criminalidade!
Essa era a São Paulo da “Revolução”! Essa era a São Paulo da TFP que fazia semanalmente aquelas manifestações em defesa da família e da propriedade! Essa era a São Paulo de Maluf, governador biônico.  Essa era a São Paulo de um Brasil que...
Ainda existe!!!